2. Psicografia - Federação Espírita Universal

    COMUNICAÇÃO OBTIDA:

    Reunião de domingo, 06 de janeiro de 1895.
    O espiritismo não pode ser a religião do futuro sem que expresse a condição de respeitar a liberdade de pensamento.
    É por tentar fundir a fé de cada indivíduo dentro dos mesmos moldes, que a religião católica é cambaleante e tanto segrega. É por tentar imobilizar o pensamento, arrastar seus ímpetos para o infinito, que todas as formas religiosas do passado tornaram-se insuficientes.
    E o espiritismo, advertido pelos mesmos erros antigos, perseverará dentro desses mesmos erros!
    Aqueles que aderem a essa doutrina e que querem, por intermédio dela, destruir as velhas igrejas, não estariam fazendo nada mais do que mudar a etiqueta do edifício religioso e, com isso, estariam renovando a regra da intolerância?
    Não! É preciso possuir uma concepção mais clara e mais ampla sobre o espiritismo. Não é vê-lo numa pequena capela aberta aos seus adeptos, mas, sim, ao grande templo da Humanidade. O templo para o qual são chamados a se reunir todos os povos e todas as raças, todas as crenças e todas as filosofias, pois ele é o templo da Verdade Eterna. E, se acaso, querem diminuir, essa verdade eterna, ao fazê-la acompanhar as minúsculas proporções das vaidades humanas, que teremos nós que fazer? Manter tudo na limitação do seu pequeno entendimento, no alcance de sua modesta vida, obrigando seus adoradores a reconhecerem-se por um triste sinal que se encontram uns aos outros e rompendo com a humanidade do passado, do seu presente e do seu futuro. E por quê? Porque qualquer um será tomado à tarefa e aqueles que corresponderem a ela serão os grandes pontífices da nova Religião. Eles se apoderaram do direito de condenar o que passar, eles não sabem compreender a beleza e as suas razões; eles, por fim, determinarão o futuro que não lhes pertence, que é de Deus, e julgarão tudo sobre a extremidade do seu limitado horizonte!
    Espíritas, retornem e contemplem, dentro da noite das eras, os povos desaparecidos; evoquem sobre as areias, onde estão enterradas as cidades antepassadas; que os povos não excluam do mundo as brilhantes marcas dos gênios, mas que as ressuscitem e rendam justiça aos vossos anciães, que também trabalharam e sofreram pela verdade e que, ao possuírem qualquer raio de luz, são chamados a pagar à humanidade o tributo pela sua inteligência e pelo seu credo. Rendam a esses irmãos do passado o respeito às suas memórias e digam que, dentro de sua grande justiça, Deus não mede a Sua luminosidade como vocês. E todas essas bíblias gloriosas, mesmo aquelas que vêm das florestas da Índia, dos platôs do Irã, das areias do Egito, das montanhas da Grécia, são reflexos da Sabedoria Divina.
    Contemplem, em seguida, nas brumas do porvir, os séculos que serão o piso do futuro: pensem vocês, em todo o aporte, todo o conhecimento e toda a luz! Que espírito humano bastante temerário, por ousar dizer ao homem: “tu não irás mais longe e sou eu que trago a certeza!”
    O homem é muito pequeno diante do infinito, em supor que somente a ele será permitido alcançar os limites, porque Deus fez os homens diferentes em faculdades e atitudes, a fim de que cada um reflita cada uma das coisas celestes. Ou, o que convém a um não convém ao outro, e que cada homem julgue as coisas humanas e divinas do seu ponto de vista pessoal e relativo. Se vamos impor essa relatividade, ele deixará de ser humanitário e retornará ao círculo estreito e falso de suas ações individuais.
    É preciso quebrar esse espírito de seita e de divisão que quer obrigar a todos os homens a admitirem os mesmos símbolos, a rezarem o mesmo credo, a produzirem os mesmos dogmas. A centralização intensa é a destruição do progresso, é como acabar com todos os bons ímpetos de originalidade individual, limitar o campo de ação do espírito, cortar as asas de seu pensamento.
    O Espiritismo não tem outra razão além a de ser a Religião das Religiões, como qualquer coisa colossal e livre, a crença de quaisquer países e de qualquer nação; pois que traz liberdade, é completo, esclarecido e ampliado.
    Oh! Como essas lutas pequenas são tristes de se contemplar! Como são mesquinhas e feias frente aos grandes destinos humanos, diante do sublime espetáculo da natureza.
    Quem é que, à medida que se agita a sorte dos povos; à medida que as nações inteiras atendam ao sofrimento de qualquer situação que os deverá salvar, que são essas as pequenas criaturas humanas que se perdem nas multidões, julgam de forma pueril e são, assim, os árbitros do mundo?
    Estranha aberração: lá, na mais doce fraternidade, deverá reinar a maior liberdade; lá, desenvolverá suas asas ou ácidas disputas as substituirão, pois ridículas questões de aparência estão na ordem do dia.
    Oh! Não são espíritos verdadeiros os que pensam e que agem por si mesmos: eles não são espíritos, a não ser de nome, e ainda não sentem dentro da sua alma o sofrimento ardente que faz sua alma capaz de conter a da humanidade.
    Sejam tolerantes e sejam livres. Vocês, que devem regenerar o mundo; contemplem a grandeza de sua missão e sobrepujem a si mesmos em virtude dos deveres que lhes incumbem: não imponham nada à força, mas pela doçura e pelo amor, como o Cristo, símbolo mais que perfeito não de uma religião, mas da Religião, esta, por assim dizer, do sacrifício e do amor.
    E se vocês se entendem nessa missão, se realmente vocês sentem refletir em sua imagem o raio divino, a glória verdadeira, não será um corpo crucificado que vocês terão como símbolo, mas uma figura do triunfo da luz.
    Porque o Cristo crucificado será a verdade eterna perseguida pela ignorância, enquanto que o Cristo vencedor na Redenção é a verdade divina derramada, enfim, sobre o mundo, para nos mostrar o caminho que nos leva a Deus pela Caridade e pelo Amor. Um guia

(Médium J.D.)
Tradução livre do COMUNICADO recebido na sessão mediúnica em Paris, publicado no “Le Progrès Spirite”, “Órgane de Propagande de la Doctrine Spirite, fundeé par Allan Kardec, cujo editor chefe é A. Laurent de Faget, na edição de número 2, datada de fevereiro de 1895, no 1º ano de edição, conforme original.