4. A MANIFESTAÇÃO PSÍQUICA e a Filosofia Espírita

    É bom reunir o conhecimento para um novo ano, de examinar o caminho percorrido, de interrogar sua consciência sobre o bem que ficou a ser feito e de assentar novos passos para a rota futura, para não se desviar do reto caminho.
    Ao entrarmos, ao longo deste ano que se inicia, em um novo século, assim devemos nos afastar de toda a preocupação pessoal, salvo aquelas que honramos, estando engajados para não nos ocupar, além do bem da Causa, de nosso desenvolvimento racional e contínuo? Vamos escutar e seguir os conselhos de nossos Guias, essas inteligências de além-túmulo que conhecem melhor a vida, a qual nós não conhecemos; essas almas puras, cujos olhos estão fixos no ideal eterno; dando a nós consciência, a nossos espíritos e nossas obras as leis de seu aperfeiçoamento, através dos obstáculos necessários, sem os quais é, às vezes, difícil de suportar.
    Se nossa alma está em comunhão com o mundo invisível, se nós não formos vigilantes no coração para alguma sombra de inveja, ou de maldade, nós poderemos ganhar o futuro, com confiança e serenidade.
    Como será o ano que se inicia? Que roteiro será consagrado ao nosso querido Espiritismo, para o bem da humanidade?
    Não é difícil de se ter em conta que a manifestação espírita agrupe, mais e mais, à sua volta, almas sedentas e desconhecidas, aquelas que não vemos todos os dias segundo o ideal, e que o número dos Espíritos aumente, aumente sem cessar, sobre todos os pontos do globo.
    Mas não é tanto pelo número de adeptos que nós somos seduzidos, mas, sim, pelo estado moral, o ensino que eles irão prover para a nossa filosofia. Poderão crer na manifestação espírita, provocada, mesmo frequentemente, sem ser verdadeiros adeptos de nossa doutrina. Nós sabemos que uma corrente supostamente científica quer desviar os caminhos espirituais que nós exploramos, tudo aquilo que une a filosofia, a moral do Espiritismo. Nós acreditamos e nós afirmamos que esse método materialista, se for aceito pela maioria dos Espiritistas, será funesto à nossa Causa.
    Os sábios fazem sua obra: eles se ocupam exclusivamente da manifestação, guardam-se de entender as consequências morais ou filosóficas que resultam naturalmente. Deixemos os sábios, mas na condição de que nós apoiássemos as suas descobertas e, sobre suas constatações aprovadas, nós iremos mais longe que eles. Nós ultrapassaremos o limite das suas concepções terra a terra, não por nos entusiasmar completamente num devaneio, mas por propiciar à razão toda sua extensão e à fé, todo seu impulso em pesquisar a lei de provir a manifestação psíquica, em suportar as consequências na vida moral, na vida social.
    A filosofia espírita deve seguir – ou preferir seguir – a ciência nessas constatações de fenômenos que, depois de cinquenta anos, são conhecidos dos Espíritos do mundo inteiro. Ela deve dar preferência à ciência, pois ela irá registrar tais fatos na sua frente e os proclamará como verdades, enquanto que a maior parte dos sábios oficiais, o espírito firme às suas revelações do além-túmulo, limitaram-se a negar, quanto mais iriam ridicularizar, desacreditá-los e os manchar.
    Nosso aviso é que nós não podemos separar a filosofia da manifestação psíquica, pois só existe o vazio sem ela. Não se trata apenas de saber se os Espíritos existem, mas, sim, de qual é a sua missão para conosco, qual o propósito e o que nós devemos fazer para solidarizar os nossos esforços aos deles.
    Quem sabe, entre os espíritas, que mesmo pela obtenção dos fenômenos os mais simples do Espiritismo, é necessário estar nas condições morais satisfatórias, é dizer que, com uma alma, assim depurada, se possível, se ele virá realmente captar os Espíritos verdadeiramente elevados?
    Nossas qualidades morais, a delicadeza de nossa consciência, a inteligência de nossas concepções, nosso amor pela humanidade, nossa fé em Deus, em uma lei de justiça, de sabedoria e de bondade, cujo traço está em toda a Natureza, nosso estado moral, em uma palavra, desempenha uma regra importante – bem mais importante do que muitos o creem – na experimentação dos fenômenos do Espiritismo.
    Se, então, nós não investigarmos a manifestação psíquica, despojada de todas as consequências filosóficas ou morais, nós somos os cegos marchando e tateando em direção à luz. E não faltarão os Espíritos de ordem inferior para participar da nossa experiência; e vem que, na reunião, o fato em si só é a causa, não é raro de ver os Espíritos evocados falarem uma linguagem inconveniente, como mestres de erros manifestos ou se traírem nas trivialidades que repugnam o pensar e formam mau juízo do Espiritismo.
    O perigo é esse, e não é a primeira vez que nós o assinalamos.
    O verdadeiro Espiritismo é aquele que se interessa pelo mal da humanidade, vem provar ao homem que esses males têm uma causa e que tal causa está nele mesmo, e que pode lhe atenuar o mal ou mesmo fazê-lo desaparecer, tornar-se melhor, progredir sem ele, pelo espírito e pelo coração.
    Dar esperança àqueles que duvidam, a consolação àqueles que sofrem, é esse o verdadeiro Espiritismo, aquele que nós preconizamos todos os dias, sem negar a eficácia da manifestação, nem a utilidade da experimentação psíquica, mas a relegar ao lugar que lhe é devida, em lugar a desconsiderá-la como o único objetivo, a única necessidade cujo Espiritismo deva ter em conta.
    Nós esperamos que esses conselhos, cuja paternidade não reivindicamos, pois que relembramos por completo, todos, a nosso querido e venerado Allan Kardec, sejam eles seguidos pelo grande número de pessoas e de escritores Espiritistas. Essa é a verdade marchando para frente, a alta razão de ser do Espiritismo. Desde o momento que vemos, ao fazer uma simples constatação das manifestações psíquicas, ou o desnaturemos, e ousamos dizer, que o degrademos. Em todos os casos, não sabemos tirar o ensinamento superior necessário à humanidade.
    De nossa parte, declaramos uma fé maior, porque, em nossa tarefa bimensal de Redator do Progresso Espírita, nós não sabemos a via estéril do Espiritismo somente científico. Nós apelamos com todas as forças de nossa alma aos Seres de luz, de beleza e de bondade que, das regiões mais puras do espaço, venham aos homens e lhes dirijam moralmente. É a eles que nós nos confiamos, para que nossa obra modesta seja abençoada e eficaz. Possam poderosamente gravar na nossa obra os preceitos os mais sublimes da lei moral, aqueles que Zoroastro, Moisés, Buda, Confúcio, Sócrates, Jesus e muito antes de nós, Allan Kardec mesmo, proclamaram como os fundamentos necessários de toda religião elevada, de toda filosofia verdadeiramente espiritualista.
    Adolph Laurent de Faget

Tradução livre do artigo, do próprio Adolph Faget, publicado no “Le Progrès Spirite”, “Órgane de Propagande de la Doctrine Spirite, fundeé par Allan Kardec, cujo editor chefe é A. Laurent de Faget, na edição de número 1, datada de 05 Janeiro de 1902, no 8º ano de edição. Conforme original.
Manifestação Psíquica entenda-se como a Mediunização.