6. Correspondência

    Ao Sr. Laurent de Faget - Presidente do Comitê de Propaganda em Paris.

    Caro Sr e Amigo,
    Após a minha partida de Paris, depois da catástrofe, que você muito bem sabe, retornei ao meu dever quase que imediatamente, e em minhas viagens, procurando dentro do movimento, em seus afazeres, uma distração às minhas dores morais.
    Uma vez que meu pensamento está vivo, minha alma ainda está em dor. Das minhas alegrias familiares, não me restaram mais que as feridas ensanguentadas e abertas.
    Cheguei às zonas ensolaradas do sul, minha vida continua, se recompõe pouco a pouco, sob a ação da temperatura regeneradora, e a minha razão retomada da direção da bete*. Estive por lá, ao voltar de Nice para Marseille, nas quais eu fui tirado do torpor geral por um fenômeno bem simples, em seu aspecto, mas que foi um brilhar nos meus ombros negros. Eis os fatos:
    Chegada à noite de Toussaint*. Depois da prece e longo recolhimento, com o pensamento em nossos caros inexistentes corpóreos*, eu lia tranquilamente na cama. Deveria ser 11 horas, quando minha atenção foi dirigida para um barulho inusitado: era como um rasgar seco e rápido de um tecido de “percal*” ou de “calicot*”, o qual ocorreu duas vezes, sem interrupções.
    A fim de não me expor de cair numa ilusão, devido aos meus sentidos superexcitados, provocando um barulho único, disse eu em voz alta:
“Se é uma inteligência que se manifesta, que produza o mesmo efeito, e da mesma maneira.”
O que foi instantaneamente feito.
    Por que o Invisível mostra-se desta maneira, pouco comum, nos diferentes barulhos que o assombram, um pouco, e por toda a parte? Eu não posso o dizer, mas de qualquer jeito, eu ali dormi aquela noite, calmamente.
    Lá pelas três horas da manhã, fui acordado de sobre salto ouvindo nitidamente uma verdadeira bateria de estrondos, ritmados, aleatórios, oriundos das cortinas das janelas de meu apartamento.
    Após uma possível dúvida de serem esses seres bons e caros amigos, que acodem dos quatro cantos do espaço que existem, trazendo a um velho exilado a certeza da sua sobrevivência e do seu amor. Com esta convicção, ainda, deixei vazar minhas lágrimas, mas plenas de alegria!
    Enquanto isso, como é admitido que geralmente os Espíritos não podem se comunicar com os vivos, a não ser através do empréstimo de um fluido vital, eu me perguntei se realmente eu não seria um médium.
    Se for, neste caso, assim, abençoei as penas e a dor endurecida que me proporcionaram esta preciosa faculdade; por ela, eu poderei pegar qualquer tarefa dirigida às almas assombradas pela dúvida e ainda em sofrimento?
Mas, não foi tudo. Então, continuando:
    - Na segunda-feira seguinte, uma noite memorável e que renovou minha conduta espiritual, eu tive a confirmação da presença de meus caros incorpóreos junto a mim.
    Um de meus clientes, de Marseille, companheiro de nossa fé. Ele tem um irmão pastor protestante. Estes senhores me convidaram a monitorar uma de suas sessões, das mais íntimas, assim meu foi dito. Aceitei com muito prazer. O primeiro nome acertado pela tipologia foi o de um amigo de meu filho Gabriel, morto há poucos dois anos, em Paris. O segundo, foi o do Espirito familiar de minha querida mulher: Virgínia.
     Este último me revela as uniões anteriores que a atraíram para a minha família, quais foram durante 30 anos de boas inspirações, e sim, instrutivas comunicações.
    Aproveitei a sua presença para inquirir sobre o estado da alma de minha amada e dos seres que vieram me visitar na noite de Toussaint. Ela está bem, pois lá estava, e voluntariamente me disse: “tu vês, nós não te abandonamos.” Depois, o espírito de Virgínia nos fala das leis espirituais que regem os seres aqui, neste momento, ou daqueles que deixam a terra; o breve estado de lapso cataléptico, depois à passagem ao sono e, enfim, a ressureição do espírito, através da visão de seus atos passados e o pressentimento de seu futuro sem fim!
    Eu o encorajei assim de me falar daqueles que foram por muito tempo seus médiuns e possuído como por uma força invisível, eu me levantei bruscamente, meus braços lançaram-se aos céus, o coração palpitou, e numa vontade enérgica evoquei à minha amada, em alta voz, como faziam nossos antepassados, os Gauleses.
    Novamente, dirigindo-me ao médium, eu percebi que o seu corpo estava rígido, num estado completamente cataléptico, com os olhos grandes abertos, fixos, a face pálida e congelada como a estátua em mármore do Comendador*.
    E então, quase automaticamente seus braços se dirigiram e se lançaram na minha direção, eu agarrei seus membros gelados, e o pressionei com ternura; para minha grande alegria ele correspondeu com a mesma pressão, do mesmo modo que minha querida amada o fazia quando vivia comigo.
    Pouco a pouco a estátua se aproximou mais ainda, e ela se inclinou para a minha orelha. Compreendi o sussurro, em uma voz fraca e suave que me disse docemente:
“Meu querido corpudo*”, eu estou bem, “tua drine”.
“Se tu soubesses da deslumbrante recepção que me fizeram quando voltei à minha antiga pátria! Eu vi muito bem meu filho e todos os parentes e amigos... tenho pouco tempo para te dar. Eu virei frequentemente, muito frequentemente, um pouco mais tarde. Eu te protegerei, estejas seguro, todos os dias, todos os dias. Eu vou te tirar a lamentação. Abrace-me. Ainda uma vez”. E, subitamente, ela abandona o médium, que instantaneamente se acorda, sem duvidar das fortes emoções que todos os assistentes vieram a sentir.
    Estas palavras pronunciadas com uma voz baixa, ainda fatigada, como nos últimos momentos, que ela pronunciou em seu leito de morte, formam para mim um sinal de identidade característico da Sra. Delanne; bem como as palavras: “querido corpudo*”, expressão familiar da qual ela se utilizava para falar comigo, de como ela adorava de estar ao meu lado, e “drine”, abreviatura do nome de Alexandrinie, detalhes íntimos que o médium não poderia em hipótese alguma conhecer.
    O meio honesto, firme, de uma moralidade bem estável, nas quais estas experiências ocorrem, podem destruir todas as suspeitas, mesmo aquelas das mais incrédulas, e dar um grande brilho de sinceridade a esta manifestação tão espontânea.
    Como você sabe meu caro, tenho muito carinho pelas coisas que interessam a nossa doutrina; eu as exporei, se receber novidades do alto, e comunicarei a você bem como aos Colegas do comitê, por retribuir a você por um prazer afetuoso, pelos auxílios que nós lhe devemos por prestar com tanta coragem e desinteresse, bem como a toda minha família, nos momentos dolorosos pelos quais viemos a passar.
    Vosso todo aficionado irmão em crença.
    Alexandre Dellane

Tradução livre do COMUNICADO, recebido na sessão mediúnica no em Paris, publicado no “Le Progrès Spirite”, “Órgane de Propagande de la DoctrineSpirite, fundeé par Allan Kardec, cujo editor chefe é A. Laurent de Faget, na edição de número 1, datada de Janeiro de 1895, no 1. ano de edição. Conforme original.

*Dia de todos os santos.
*Tipos de tecidos de algodão
*Besta, Bestial
*Corpudo a indicar Ogro.