9. O ESPÍRITO DE CRISTO E O CRUCIFIXO

    Não evocarei o gênio zombeteiro de Voltaire para guiar-me neste imperativo que empreendo hoje; eu não evocarei Musset melancólico da falsa devoção por estes versos cuja forma é admirável, mas cujo pensamento é cruelmente injusto:

“Tua glória e morte, oh Cristo”! E, sobre nossa crença de ébano.
Teu cadáver celeste em pó é tombado.!

    Chamarei, então, para ajudar-me, o ilustre poeta que escreveu os seguintes versos sobre o Crucifixo:

Tu que já retirou sobre a sua boca expirada
Com seu último sopro e seu último adeus,
Símbolo de fé santa; dom de um manter moribundo, Imagem de meu Deus!
Que o choro que corre a teus pés que adoro,
Após a hora sagrada ou, do seio de um mártir,
Nos meus temores
Nas minhas trêmulas mãos tu passas, morno ainda
O seu último suspiro!


    Não, esses versos não são homenagens a Lamartine, cuja inspiração é, portanto, para se elevar, que eu solicitaria a solução do problema ao qual me ocupo. Esse pensamento não encontro? Mas, sim, adoravelmente fatigado, como em todos os dias, entretanto os espíritos não podem ter, no Crucifixo, a imagem de seu Deus.
    A palavra, muito poética, é bastante ampla do ponto de vista filosófico. Deus, de qualquer maneira que O vislumbrar, será o Ser infinito, ou abarcando o infinito. O Cristo é somente um de seus magníficos raios divinos que são trazidos a nossa Terra para nos iluminar de amor e de esperança.

    Não poderia eu me elevar o suficiente através do espírito e pelo coração por não ser tão indigno de chegar aos sublimes espaços abismais obtidos através da prece, um reflexo desta luz divina que o Cristo, mais do que qualquer outro, contribuiu ao derramar neste mundo? Porque o homem sincero, e o jornalista consciente, cuja meta é o de ser útil a todos, não está, entretanto, em certos momentos, em comunicação com o espírito do grande Crucifixo? Que importa a distância entre os homens? É a pureza das intenções que é tudo.
    Eu venho, então, a vocês, oh os lauréis dos humanos, e lhes pergunto se o Crucifixo, aquele em que vocês representam o Cristo ensanguentado, desfigurado, com os pés e as mãos perfurados por cravos, uma chaga nas costas; e, mais ainda, pergunto a vocês se este Crucifixo deve ser o emblema dos espíritos que creem no eterno renascimento, repudiando a ideia desolada da morte? Certamente, entre nós, devemos impor o Crucifixo pendurado na parede no momento de reunião, em todas as reuniões, nossos como dos outros, e ele será a nossa aceitação da cruz católica, na condição de sua marcha comum, conosco. Devemos nós aquiescer aos seus desejos?
    Vocês sabem quanto é grande nossa veneração sobre Ele, o apóstolo do amor fraternal, o mártir sagrado, exemplo eterno dos homens; mas nós desejamos lhe contemplar sob uma forma mais em harmonia com nossas aspirações, queremos, desejosos, ver, na paz gloriosa do além, um doce sorriso sob o lábio, os braços em direção aos sofridos e desesperados; chamando a todos de seus irmãos, sem exceção, para a felicidade que Deus não pôde lhes oferecer nas suas crenças. Desejamos contemplar uma cabeça de Cristo radiante de vida, cuja expressão traduzirá as altas faculdades de sua natureza se superadas, sob a doce claridade do amor infinito, que vocês portam aos homens, isso nos agradará mais que este instrumento de súplica que, antes de 180 anos (para aqueles que reconhecem sua ascensão na glória celeste), resta ainda cobrir os sangrentos opróbios do lugar onde Cristo foi pregado na cruz, naquela colina conhecida como Gólgota.
    Nós não imaginamos, num outro lugar, aonde venham os neófitos solicitar ao espiritismo a crença racional baseada sobre a Fé positiva, e que, submetidos a isso, gostem de encontrar, em nossas paredes, o emblema mais solene de uma religião dogmática. O Crucifixo pertence, todo particularmente, ao culto que necessita de exposições dramáticas para falar aos olhos de seus fiéis; tanto que vocês, comandantes venerados, vocês pertencem, pelo coração, a todos aqueles que sentem, amam e são esperançosos.

    Então, eis aqui o que o Cristo me respondeu através de minha consciência:
“Todos os homens são irmãos, mas não chegaram todos no mesmo nível de ciência e de amor”. Uns são fracos ainda, estando resistentes e amarrados às suas antigas ideias, aos princípios retrógrados, que eles não ousam desafiar, aqueles que dizem, do medo, acumulados nas ruínas de uma sociedade expirada. Esses ainda seguram ou passam para os seus afins mais fortes que eles não creem. Esses serão abandonados, os sinais representativos de sua fé. Se eles desejarem ter, sem cessar, no seu olhar, a imagem da morte, será aquela que lhes é necessária para lhes fazer vislumbrar a pátria celeste, a qual choram e rezam aos pés do Crucifixo: Jesus ouvirá as suas preces e verá as suas lágrimas.
Mas, por serem mais avançados, preparados sob a regra da razão ao mesmo tempo que sob a regra da justiça; para os adversários do dogma, dos vãos simulacros, das formas culturais, sendo, portanto, espíritos livres que lembram o céu puro e veem a imagem de Deus, em que o Crucifixo poderá a eles ser necessário? Esse Crucifixo de dor representa um ciclo terminado, um antigo terror; e suas almas, palpitantes de amor, se elevam em direção à luz universal, se lançam para o esplendoroso futuro. Ah! Que levem a cabeça em direção de meu Pai que está no céu. Somente ele é digno de nossa adoração e de nossa homenagem. Eu seria honrado de recolher, sob seus lábios e em seus corações, o cândido do amor, por possuir a expressão reconhecida do seu único Mestre, o Altíssimo, aquele que tem a imensidade dentro da sua mão titânica, medindo os abismos sem fim do espaço dos Mundos, colorindo a tendência da flor na encosta da Terra e fazendo morrer suas almas pela ceifa do infinito.


    Desculpem-me, queridos leitores, de aqui traduzir, se fracamente, as palavras cujo eco vem da vibração de minha alma.
    Apesar disso, creiam vocês, que podemos dar o seguinte significado:

Paz é liberdade! Que cada um faça esforços para colocar, em sua própria consciência, a altura do dever que nós vamos todos cumprir. Que os tomados pela incerteza se dirijam aos convictos; que os místicos se esclareçam sem, contudo, perder a espontaneidade da sua fé. É a união fraterna que nós devemos, diariamente, conservar no meio de nós, então ela será vista como nossa salvaguarda, trazendo, a cada um, nossa pedra ao edifício comum. Isso, sendo feito sem ninguém abandonar a sua convicção pessoal, mas, sim, com o desejo de nos instruir ainda mais, uns dos outros, todos ao contato intelectual, enquanto irmãos em Cristo. Muitas das grandes discussões ardentes, às vezes envenenadas, vindas daqueles que veem o Crucifixo dentro de sua memória, o guardam sem o impor às outras sociedades de espiritismo. Aqui, portanto, está a verdade: a indulgência que nós devemos dar reciprocamente. Agir de outra maneira seria a falta absoluta de seu dever de espírita. Em vez de aumentar esses obstáculos, devemos, para o bom seguimento do espiritismo, contribuir para o entendimento.

    Quanto à Federação Espírita Universal, ela será orgulhosa de colocar um retrato do Cristo nas suas paredes; reivindicará o direito e reconhecerá o dever, a qualquer um de seus membros, de elevar seu pensamento e seu coração para o puro, o celeste missionário que, certamente, não veio ainda, e, ao que parece, ainda não foi livrado de sua torturante cruz, ou ele continuará a morrer após tantos séculos?
    Tendo isso em vista, a Federação não poderá conceder a instalação, definitiva e imposta a todos, de um Crucifixo na mesma sala, se lembrarmos de que é, dessa forma, que o Cristo católico, cujos inquisidores apresentaram às suas vítimas em expiação; que é essa imagem de dor, portanto, ainda que respeitada, seja, também, odiada entre as suas mãos, uma vez que os tormentos de Joana D`Arc contribuíram para com a hipocrisia através das chamas que devoraram seu ventre.

Tradução livre do artigo, de autoria de A. Laurent de Faget, publicado no "Le Progrès Spirite", "Órgane de Propagande de la Doctrine Spirite, fundeé par Allan Kardec, cujo editor chefe é A. Laurent de Faget, na edição de número 1, datada de Janeiro de 1895, no 1º ano de edição. Conforme original.