10. Psicografia - Ditado Medianímico

    Domingo, 13 Janeiros 1895

    A vocês, pedimos, em meio à evolução filosófica universal, esclarecer ainda mais a tarefa reservada ao espiritismo propriamente dito.
    O espiritismo tem, a si, o grande papel de recordar nossa atenção sobre certos acontecimentos ocultos, que são considerados como grosseiras superstições, e de estabelecer a correta relação que existe entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Ele também tem o mérito de exercer uma bela e consoladora filosofia, vindo a suplantar a religião cristã e o materialismo e preparar os nossos olhos para uma religião nova, maior e ainda mais perfeita.
    Preferentemente, o espiritismo kardecista, que é o espiritismo francês, e os espíritos franceses têm o direito de se sentirem orgulhosos, não obstante, nós o repetimos, como um plano: 1. Porque ele esteve negligente ou ignorando uma multidão de fatos e de fenômenos; 2. Porque essa filosofia não está na forma embrionária de uma grande ideia.
    Do ponto de vista dos acontecimentos, o espiritismo kardecista não levou em conta, nos fenômenos que ele estuda, algo que vá além da ação das almas dos mortos, fator insuficiente para apreciar, de forma clara e no seu devido valor, todos os acontecimentos do mundo espiritual. Ele também ainda não cumpre, no seu campo de estudos, os fenômenos do pensamento, considerados neles mesmos, e o jogo das forças naturais inconscientes ou semi-inconscientes que agem na Natureza.
    Do ponto de vista filosófico, as ideias relativas à vida espiritual e ao seu desenvolvimento não são recebidas na amplitude necessária e na sua aplicação direta à vida social.
    No passado, o espiritismo fez uma preparação admirável e necessária a esses estudos mais completos, sendo o ponto de partida de um ciclo de verdades destinadas a crescerem dia a dia.
    Essas críticas que nós fazemos ao espiritismo kardecista não são propriamente ditas críticas, mas, sim, simples constatações que servirão de base para conceber toda a grandeza, em mostrar que o espiritismo não é uma concepção esgotada e limitada, sendo, portanto, o começo de uma filosofia científica plena de futuro.
    Qual será sua orientação atual? Primeiro, ela não deverá se contentar com o seu passado e se afirmar como uma verdade absoluta; pois, o que aqui é verdade numa dada época, não o será mais na época seguinte, uma vez que cada tempo recebe a verdade relativa que lhe é conveniente e que contém os germes da verdade seguinte. Desse modo, uma verdade um pouco mais completa será substituída, a seu turno, por uma verdade maior, a fim de responder ao constante progresso da Humanidade.
    Se o espiritismo aceita seu passado como uma nobre introdução e não como um artigo de fé, ele será bem mais livre perante a verdade presente, que lhe pode ocorrer e crescerá não na sua crença, mas em seu conhecimento em Deus e na imortalidade da alma.
    Esse conhecimento, sendo o mais perfeito do Universo, implicará em obter, em estudar melhor ainda os fatos espíritas nas suas causas e em seu alcance filosófico.
    Os acontecimentos espíritas, nossas manifestações, são, até então, no presente, muito mal estudados, por quem se atém somente aos fenômenos em si, sem considerar as suas origens. Ao pesquisar os fatos para ver as provas do mundo espiritual, negligencia-se o estudo do produtor mesmo desses fatos: o médium.
    Não podemos saber nada da mediunidade se não levarmos em conta a relação entre a origem das manifestações obtidas e o temperamento do médium. Não sabemos, ainda, nada da mediunidade; não temos procurado estabelecer, em nenhum momento, uma relação entre o tipo de acontecimento obtido e o temperamento do médium. Não há uma tese de pesquisa que agrupe, de forma lógica, os acontecimentos espíritas com os acontecimentos magnéticos; enfim, abordarmos, de forma muito apressada, a mediunidade, sem nos darmos conta de seus perigos e de suas forças, ademais que as forças vêm dos espíritos, que elas podem provocar.
    O caminho da investigação, restrito somente na comunicação dos vivos com os mortos, impede os corolários de estabelecer e de extrair, nitidamente, a lei geral que determina todos os fenômenos do pensamento.
    Os estudos imediatos têm tentado demonstrar se são essas forças que trazem a mediunidade. É esse estudo comparado do médium, de sua raça, seus ascendentes, seu estado psíquico e mental, com os fatos que ele obtidos que o originaram, no seu desenvolvimento, e nas suas transformações.
    Nesse momento, surge um verdadeiro espiritismo científico, um espiritismo de fatos e que será de fácil continuidade, uma vez que terá a ajuda dos argumentos magnéticos, que são capazes de constatar o estado orgânico e constitucional de um médium, suas relações com a categoria de forças e de espíritos que atuam nele.
    Dessas constatações, zelem, nutram-se e, dessa forma, poderão fortalecer as leis gerais aplicáveis à evolução humana, no seu estado psíquico e moral. Essas leis particulares se aplicam ao desenvolvimento normal e sem perigo das faculdades do médium, que não se desenvolveriam bem nele. Enfim, a partir dessas constatações das manifestações da vida, na polarização de sua própria individualidade, na transferência de energias de um ser ao outro, na radiação constante na substância universal e, em uma palavra, no aprofundamento do homem, que pode, por sua vez, chegar à concepção do grande universo, o qual, ao ter suas leis estudadas, aquelas que estão nele mesmo, podem, portanto, ser a redução das leis universais.
    O espiritismo progredirá, profundamente, enquanto ele permanecer na orientação kardecista pura e simples, sendo o suficiente para encetar e para aqueles que são de uma fé firme; mas, para o interesse geral do espiritismo, essa orientação somente o condenaria a um desvanecer.
    Pois o espiritismo necessita de que o trabalho de observação do homem, na sua própria vida psíquica e espiritual, seja cumprido; pois se ele não for feito pelos espíritos, outros o farão em seu detrimento.
    As novas verdades transbordam. Elas são para todos e serão lançadas a fim germinarem em todas as classes da sociedade. Elas estão nas capelas dissidentes que se elevam junto dos templos seculares.     Elas são a ressureição do passado, estando nos estudos das línguas, que permitem estabelecer a filiação das raças e o desenvolvimento do pensamento; na ciência, que sonda os espaços estelares de seu olho audacioso, ou que vê a agitação dos mundos na gota d’água. Essas verdades são as admiráveis descobertas que vem mostrar o poder sem limite da vida. Elas são a lei coletiva, que fez dos corpos humanos um universo animado, e, de cada homem, uma célula do grande corpo social. Desse modo, todos vêm dedicar-se às mesmas conclusões, e tudo vem demonstrar que o mundo material é o revestimento do mundo espiritual e que, por intermédio de suas leis definidas e concretas, ele revela as leis indefinidas e abstratas; demonstrando que, sob a forma, evolui o pensamento, e que, com isso, o homem sente, enfim, sua inteligência abrir-se para o bem imperativo, e seu coração, por sua vez, abre-se para a verdade eterna.
    O homem antevê a glória de um futuro brilhante, achando que, ao se consagrar ao seu trabalho cotidiano, decifrará, no livro da Natureza, os sinais da inteligência divina.
    É dessa forma que, essas verdades, previamente, o conduzirão, tendo ele o maior desinteresse por suas glórias pessoais, e, ao tornar-se muito mais tolerante, aprimorará as suas ideias, as quais pertencerão ao laurel da vitória.
    A vocês, espíritas, acolham essas verdades, colocando um fim a essas discórdias, que dividem e que falam muito alto contra vossa grande doutrina. Pois só desse modo vocês se unirão para fazê-la triunfar.
    Lembrem-se de que os primeiros tentaram auxiliar vocês, levando em conta a causa da Humanidade. Primeiramente, vocês devem procurar estudar os informes psíquicos e materiais do homem com o além. Não parem de seguir essa grandiosa rota, a fim de dar ao espiritismo aquilo que lhe falta. Procurem não por vocês, que tem a convicção, mas pela glória de sua fé, pelo seu futuro que está em suas mãos. Procurem por essa meta prática que mede o quanto das consolações do coração servem de alimento ao espírito. Essa meta, enfim, que estabelece a base sólida da ciência à medida da inspiração profética.
    Estudem seus médiuns ao mesmo tempo em que estudem as manifestações que eles produzem. Isso é dizer que, entre a humanidade visível e a humanidade invisível, define-se o vínculo que as une. Quando vocês haurirem e cumprirem essa paciente tarefa de procura, vocês sentirão, à medida que penetrarem nos secretos mistérios do homem na sua vida psíquica e espiritual, quando também a natureza lhes permitir ler no seu livro, vocês sentirão extrair de todas essas observações, de aparências secundárias e insignificantes, a serena concordância do divino. Com isso, suas almas, elevar-se-ão para a grandeza das manifestações da inteligência suprema, existindo, assim, com ela, no infinito.

Médium J.D.
Tradução livre do artigo, de autoria de A. Laurent de Faget, publicado no "Le Progrès Spirite", "Órgane de Propagande de la Doctrine Spirite, fundeé par Allan Kardec, cujo editor chefe é A. Laurent de Faget, na edição de número 3, datada de Março de 1895, no 1º ano de edição. Conforme original.