11. Curiosidade

    O espiritismo, vocês bem o sabem, se infiltra por toda a parte. Não é raro ver a grande imprensa, diariamente, em consagrá-lo em artigos sérios e interessantes. Abaixo um exemplo encontrado nos jornais de moda. Esses mesmos, pois eles também estudam o espiritismo, seus fenômenos, e, se ainda se valem dele, de sua filosofia, deve-se pelo fato de que a maior parte desses jornais, redigidos para as leitoras femininas, possuem, ainda, um pouco do misticismo impregnado das igrejas. Isso não os impede, entretanto, de ver as tendências elevadas, de serem escritos em bom estilo e, por causa disso, encantar seus leitores pela moral romana muito bem-feita, mesmo que parecida ao vigor um pouco ao de Zola.*.
Apresento, aqui, o artigo encontrado no Jornal “France Mode” de 28 de outubro:

Conto da chaminé
BOÈGE (Alta Sabóia)

    Estava outro dia com a Condessa de L. O tempo estava sombrio, com nevoeiro, como é comum nesta época do ano. Uma umidade penetrante parecia cair do alto circundante sobre os nossos ombros. Também o grande fogo, na sua dança tortuosa, sentia-se bem no ambiente, iluminando tudo da monumental chaminé do salão, impressionando-nos ao redor da coifa, dando-nos uma verdadeira sensação de bem-estar.
     Nós estávamos, a esta hora, indecisos sobre o dia que terminara; mas, mais do que isso, sobre onde o modo que a noite, que ainda não havia chegado, chegaria com sua semiobscuridade, essa que deixa todas as coisas com uma predisposição repleta de charme e de poesia, dispondo a alma a longos e curiosos devaneios íntimos, a qual nós a entendemos como sendo a noite do outono, melhor do que vemos.
    Que fazer, em efeito, para uma atividade, em um tempo semelhante a este, senão introduzir um assunto quando se está com um grande número de pessoas que temem a aparição das lâmpadas?
    Despontava, desde aqui, daquele outro, e de mil outras coisas diversas, ainda que, insensivelmente à conversação, se imprimisse uma tendência muito particular, ou, se preferirem, muito filosófico, por assim dizer. Uns negavam o magnetismo, outros o defendiam com fé, estes daqui falando do espiritismo, aqueles de lá apenas observando, ao mesmo tempo em que, de modo irônico, sorriam.
    Uma amável viúva principiou, então, a falar, e, como as histórias que ela sempre conta são, em geral, muito verídicas, o silêncio se fez presente na assembleia. As cadeiras se apertam umas contra as outras, e escutamos, religiosamente, o seguinte:
“Estava este ano por lá” – começou a espirituosa mulher e continuou – “passei com muitos parentes e amigos, estávamos em Ermitage*. Entre os hóspedes da montanha, encontrava-se um compositor, não daqueles que escrevem a música como profissão, mas um poeta, cujas melodias idealistas transportariam vocês às esferas etéreas. Havia, também, um velho professor, que era um pensador e um filósofo, um crente a seu modo. Embora não fosse um praticante ortodoxo, ele tinha a crença em Deus e na imortalidade da alma. Apesar disso, ele considerava que, mesmo ele sendo alguém que havia tido uma primeira educação muito cristã, estava, naquele momento, ligado, sobretudo, a uma crença, que era a daqueles que creem na possibilidade de evocar a alma dos mortos. Ele se dizia médium. E, de fato, ele tinha, em seu olhar, um grande poder magnético.
    Com a companhia do músico, em longas caminhadas através dos grandes bosques, eles tinham intermináveis discussões sobre o assunto do magnetismo. Elas continuavam mesmo à mesa e, frequentemente, éramos obrigados a nos interpor entre eles para colocar um fim àquilo.
    Um dia, o velho professor insistia mais do que de costume sobre o poder de sua mediunidade. Pediu, então, a seu companheiro que, utilizando-se de uma prece, pensasse mentalmente em qualquer pessoa que houvesse conhecido ou amado. Devia, além disso, pedir a essa pessoa que, ao regressar ao salão, que se manifestasse, de modo a tocar, ao piano, uma parte de sua música predileta. Além do mais, o professor se comprometia de que essa manifestação se concretizasse completamente. Então, disse o professor, “Isso agregará, para vocês, serem convencidos, eu penso; e, se o desejarem, ensinarei como devem ser médiuns”.

    Um pouco incrédulo, mas também um pouco nervoso, o compositor aceitou a proposta. Recolheu-se um instante e, então, entrou no salão todo perplexo, fechando hermeticamente todas as portas e janelas.
    Cada um dos presentes assistia a tudo aquilo em silêncio. O piano ficou aberto. Todos, muito atentos, observavam o velho professor imprimir, a si mesmo, um ar inspirado. Em seguida, ele pronunciou, de modo sussurrado, algumas palavras, palavras que nós julgamos serem cabalísticas, tanto que o músico, naquele momento muito pálido, parecia não deixar de pensar em sua reputação como pianista.
    Na verdade, estávamos todos bastantes impressionados, pois qualquer pessoa, por amor próprio, assistindo àquele quadro, não podia fingir. Encontrada junto à laca do piano, a obscuridade era quase total, o que nos trazia um aumento ainda maior do sentimento indefinível que nos embargava.
    Pouco a pouco, uma forma de nuvem, esbranquiçada, parecia se desprender do teto acima do piano. À medida que descia, essa nuance parecia se condensar mais intensamente, tornando-se, igualmente, fosforescente. Estávamos todos emudecidos, e o compositor mais do que qualquer outro, que fique isso bem entendido.
    Em seguida, seguramos, por assim dizer, nossa respiração, bem como qualquer iminente batida do coração e, certamente, escutaríamos, não figurativamente, mas de fato, o voar de uma mosca, tamanho o silêncio que, de modo tão profundo, envolvia-nos.
    Subitamente, de forma muito visível, duas mãos, possuidoras de uma nuance muito branca, destacaram-se. Vimos, então, elas revolutearem sobre o piano, tendo a agilidade de um virtuoso e o sentimento de um mestre.
    Quando o compositor exclamou: “Oh! É a Polonaise de Chopin que meu pobre irmão tanto amava e que lhe valeu um brilhante sucesso! ”, um calafrio percorreu todo o auditório.
    Essa exclamação pareceu transmitir àquelas mãos um aumento de agilidade. Nós estávamos realmente pasmos com seus mágicos dedos e, também, nos sentíamos impossibilitados de reter frenéticos aplausos ao soarem os últimos acordes em nossos ouvidos. Nesse exato momento, o compositor sentiu uma doce brisa, como uma tenra carícia, a aflorar em seu rosto. As mãos e a nuvem desapareceram, e, então, havia somente o piano e o velho professor. Ele só, e senhor de si mesmo, exclama, acerca do resultado obtido: “Bem meus amigos, que dizem vocês? A experiência assim está concluída? ”
    O músico se declarou resignado. Estávamos todos sem conseguir explicação alguma de como aquela força incomum poderia provir como um milagre.
    Eu, depois daquele momento, jamais ensaiei evocar imprudentemente as coisas pelas quais choro – acrescentou a viúva dotada – “E, se eu estou contando esta história a vocês, é muito mais para distrai-los em um determinado momento do que por vos encorajar a imitar o velho professor de que lhes falei.
    Resta, para nós, acreditar, com essas provas palpáveis e crer na imortalidade da alma?
Jeanne de bargny

1 janeiro 1895.

Tradução livre do COMUNICADO, recebido na sessão mediúnica no pequeno grupo em Paris, publicado no “Le Progrès Spirite”, “Órgane de Propagande de la Doctrine Spirite, fundeé par Allan Kardec, cujo editor chefe é A. Laurent de Faget, na edição de número 1, datada de 1 de Janeiro de 1895, no 1º ano de edição. Conforme original.