12. Psicografia - DITADO MEDIÚNICO - Depoimento

    Que as comunicações do mundo invisível sejam benditas! (Assim diz o Espírito). Tu não sabes ainda a imensa consolação que é dada pelo mundo espiritual, porque tu não viste ainda um desses momentos terríveis em que a justiça humana apodera-se de um criminoso e o condena a morte. Mas, eu mesmo me vi, nesses últimos momentos de minha existência, ao pé do cadafalso. Eu que tinha matado um homem pela inveja. Nós dois amávamos loucamente a mesma mulher, e um ódio muito forte conduziu o meu braço, sendo o suficiente para matar o meu rival em um único e certeiro golpe de adaga.
    Não fugi do julgamento. Eu estou livre para com a justiça ao declarar: ”eu o matei, porque ele iria levar o objeto de minha adoração, e, se ele ressuscitasse cem vezes, cem vezes eu o mataria, estou, pois, contente comigo mesmo, estou, pois, conformado em morrer assim”.
    A mãe de minha vítima, uma mulher de grande influência social, fez o impossível para me levar ao cadafalso. Apesar disso, a família de minha adorada, sendo também rica e poderosa, empregou toda sua popularidade para salvara minha vida. Como existia uma luta de forças desiguais, o processo durou muito tempo, mas, ao final, condenaram-me à morte.
    Então, fui à capela por três dias. Um grande número de padres interrogou-me, a fim de obter a minha confissão, mas me recusei a fazê-la e perseverei em guardar o meu silêncio. Na segunda noite que passei na capela, deitei-me e,expressando a minha vontade,solicitei que me deixassem a sós. Triunfei, e meus guardas afastaram-se o mais possível e, pouco a pouco, vi, na minha frente,a silhueta de minha vítima, entretanto não ameaçadora e vingativa; mas, sim, doce e sorridente. Permaneci surpreso e atônito, e minha surpresa aumentou mais ainda com o que ela me disse muito tranquilamente:

“Eles irão te matar, porque eles me creem morto, mas estou vivo. Além disso, meu ódio já não mais existe, estando, ele, sim, morto. Eu não sou mais o teu rival. Eu o tinha sido durante muito séculos, pois, em todos eles, coincidentemente, amamos a mesmíssima mulher. Eu só vi isso depois da minha morte.
    Isso tudo que lhe conto estava muito bem descrito nas páginas de nossa história e, agora, o momento de nossa reconciliação chegou.Sou mandado a dizer-te que tu não perecerás sob o patíbulo. Esforcei-me muito para que tu sejas agraciado. Confesse-te amanhã, mostre o arrependimento sincero. É preciso que tu o faças, pois assim nos reconciliaremos. E por favor: não diga nada sobre isso. Não diga a ninguém que tu me viste”.

    Em seguida, a silhueta desapareceu. O que senti eu então? Isso eu ignoro. Só posso afirmar que eu não fiquei surpreso com a visita dele. Com isso, eu me confessei no dia seguinte e informaram-me que as melhores influências haviam estado em jogo, a fim deque meu perdão fosse obtido.
    Estive rodeado de muitos padres e, próximo a mim, vi novamente a sombra de minha vítima que, pondo o índice sob os lábios, me indicava, claramente, pela sua atitude, que eu devesse permanecer calado.
    Eu calei, e, ao alvorecer da manhã, tranquilo e sereno, subi em direção ao cadafalso.
    O verdugo e seus assistentes mexiam-se com lentidão e indolência. De imediato, avistei a silhueta.
    Ela estava diferente e influenciava sobremaneira em retardar o momento da execução.
    Não obstante, eles me fizeram sentar, e a silhueta, seguia-me, sempre bem próxima a mim.
    Imediatamente, ouvimos o grito: “A graça! A graça!”.
    De fato, o bispo da diocese, conduzido por um grupo de cavalheiros, agitando um papel, chegou ao pé do cadafalso. Esse bispo abriu seus braços do mesmo modo que o fez a silhueta de minha vítima.
    Como sempre é possível obter tudo através do ouro, pude sair da prisão um tempo depois. Mais tarde, cheguei a Nova York e, lá, a esposa de meus desejos deu-me acolhida. Foi lá que me uni a ela pelos laços indissolúveis e foi lá, também, que o Espírito de minha vítima anulou nossa dívida ao dizer-me:

“Ame muito seu primeiro filho”.

    Um longo tempo se passou, e o esperado filho tardava a chegar; mas, então, ele veio ao mundo. Minha esposa e eu o recebemos como a uma joia. Apoiamos seus primeiros passos, escutamos as suas primeiras palavras e vimos as suas primeiras brincadeiras. Ele era uma criança de um caráter impetuoso.
    Próximo de atingir a idade de sete anos,já manejava admiravelmente as armas de fogo. Um dia, enquanto brincava com uma pistola, a qual eu acreditava estar descarregada, a arma disparou, e uma bala atravessou o meu coração.
    Minha esposa quase ficou louca, pois meu assassino não só era uma criança inocente, como também era nosso amado filho!
    Ainda agora, quando minha esposa e meu filho vêm visitar a minha tumba, posso observar como a minha adorada consagrou-se ao nosso filho. Ele, por sua vez, guarda um souvenir inefável e melancólico, pois minha morte mudou completamente seu caráter: de impetuoso que era, passou a ser tranquilo e sereno; de orgulhoso que fora, passou a ser humilde.
    Atualmente, olho muito por ele. Meu filho era meu rival de ontem, e minha morte foi o ponto final de um período de nossa história.
    Estudem. Estudem o Espiritismo! E bendita seja a hora suprema que fez brilhar esta luz sobre a terra!

Adeus!
Extraído e vertido para o francês do jornal publicado em Barcelona“Luz y Union”.
Tradução livre do DITADO, publicado no “Le Progrès Spirite”, “Órgane de Propagande de la Doctrine Spirite, fundeé par Allan Kardec, cujo editor chefe é A. Laurent de Faget, na edição de número 22, datada de 20 de Novembro de 1901, no 7º ano de edição. Conforme original.