13. O Espiritismo e os Espíritas

    O Espiritismo sustenta-se sobre duas bases inquebrantáveis: o sentimento e a razão.

    Ambos elementos devem caminhar harmonicamente unidos, a fim de produzir ótimos frutos. A ciência, sem sentimento, é estéril, seca e fria; e o sentimento, sem o norte da razão, facilmente se extravia e, insensivelmente, cai no fanatismo. Este último sucedeu-se com todas as religiões.
    O Espiritismo, que deverá ser a religião científica, está ainda mais exposto para cair em erros, os mesmos que as religiões positivas, porquanto o espírito individual goza da plenitude de suas preferências, sem dogmas que o contristem, nem infalibilidades que o sujeitem.
    É, portanto, indispensável, se queremos avançar no caminho do progresso, não exagerar em nenhum dos dois conceitos fundamentais e necessários para esse avanço.
    Lamentavelmente, entre nossos correligionários, esse equilíbrio harmônico não é comum entre a verdade e a bondade. Será que a coisa é, em si, difícil, como o são todos os equilíbrios?
Assim, vemos que aqueles que não caem no fanatismo do sentimento acabam caindo de cheio no fanatismo da ciência, sendo que um é tão ou mais prejudicial do que o outro, pois, se me dessem para escolher entre um ignorante, um fanático pelo bem, e um sábio, um fanático pela ciência, não ficaria com o segundo.
    Digo isso, pois ambos estados são defeituosos e prejudiciais, por constituírem o maior obstáculo para o desenvolvimento da doutrina espírita. Mais do que os nossos adversários naturais, devemos temer a nós mesmos. Não será demais em insistir nisso.
    Existe uma multidão de monomaníacos entre os espiritistas; mas as duas formas mais comuns dessa enfermidade são: a monomania do sentimento e a monomania da ciência.
    Para os aficionados, não existe excentricidade alguma que não os insinua entre si sob o prisma do sentimento amoroso. Toda comunicação sentimental é terna, é verdadeira, é superior e até é sublime, mas, mesmo assim, está maculada dos mais estupendos absurdos. Essa classe de adeptos é comumente humilde como cordeiros, mas lhes falta a sagacidade da serpente.
    O exagerado conceito da humildade os induz à ideia de acreditar que seu potencial é negativo, que somente vão, se forem levados, já que ninguém pode fazer por si só e sob a sua própria responsabilidade, uma vez que seu papel se reduz a ser mero instrumento dos espíritos, que tudo podem, e toda sua missão, seu principal trabalho, consiste em tão somente orar e purgar-se dos defeitos, a fim de merecer a influência dos espíritos bons. Assim, todo ato sério de altruísmo, toda ação nobre e levantada é considerada efeito da boa assistência espiritual, e, desse modo, limitam-se a dar graças a Deus e aos espíritos protetores.
    Isso, tomado ao pé da letra, é um erro, embora resulte menos prejudicial, já que é o erro oposto dos cientistas exagerados, pois é movido pela humildade e estimula a prática do amor, virtudes redentoras que, por si só, são suficientes para merecer maior auxílio espiritual e uma maior energia para o bem.
    Toda a enfermidade, quer seja uma pneumonia ou um câncer, é pura e simplesmente obra dos espíritos maus, e a terapêutica consiste simplesmente na oração e no uso de agua magnetizada. A Medicina, tanto alopática como homeopática, é completamente inútil. Tudo se reduz na oração. Para eles, não existem loucos; todos são obsidiados.
    Conheci uma família em que, a cada manhã, perguntava ao Espírito o que deveriam comer ao meio dia. Outros me disseram: “é tal a minha fé na ação dos espíritos que, mesmo surgindo, no meu caminho, uma emboscada, com homens armados de fuzis e com baionetas, não os deixaria de seguir, pois estaria seguro de que os espíritos me livrariam de todo o mal, se assim estivesse convencido”.
    Existem adeptos que não comem toucinho, nem bebem vinho, por assim ter sido ordenado pelo espírito protetor da família – ou do Centro – sem dar-se conta que não mancha o que entra; mas somente o que sai da boca. Tais são os fanáticos sentimentais.
    Vamos ver se consigo descrever, em poucas linhas, os monomaníacos, aqueles filósofos puros, aos cientistas furiosos.
    Salvo raras exceções, esses irmãos, comumente, não podem distinguir-se nem por sua humildade, nem por sua bondade. São chamados de bons só porque não são maus, mas é certo que não se diferenciam muito das demais pessoas tidas por honradas. A divulgação, por exemplo, não as afasta. São eloquentes, e sua conversa é amena, mas seus atos são completamente estéreis.
    Apaixonados perdidamente por uma ciência que, a cada dia, tem de retificar-se, e que tão pouco vale, se comparada com a presunção com que se apresenta, são capazes de aceitar, em seu nome, as maiores extravagâncias. Qualquer barbaridade dita por algum membro da Academia, toda teoria, por inverossímil que seja; desde que leve a marca de algum sábio oficial, os resulta simpática, aceitando-a com a felicidade, ainda que não tenha por base a experiência e nem por veículo a lógica. Tudo o que é destilado, tudo o que é distorcido, tudo o que é labiríntico e sutil lhes seduz. Buscam o maravilhoso na ordem científica do mesmo modo como os afetuosos, por sua vez, buscam o maravilhoso na ordem do sentimento.
    No saber, são fortes, apenas chegam a crer-se necessitados de auxílios superiores que iluminem sua inteligência ofuscada por uma multidão de sofismas e que elevem a sua atividade amorosa até o sacrifício e faça-lhes, em suma, mais plena a prova de sua existência. Muitos deles padecem de uma verdadeira desordem científica. Ingeriram muitas ideias, mas não podem digeri-las.
    A seus olhos, a oração é inútil, e o tempo nela empregado é completamente perdido. Frios com a sua ciência, são quase fatalistas, e todo o mérito consiste em aguentar, como as pedras de um rio, as desilusões e os sofrimentos, sempre com uma impassividade estoica, sem orar nem blasfemar, uma vez que ambas as coisas são perfeitamente ridículas para esses espíritos fortes.
    Os obsidiados não são para eles obsidiados; são loucos ou desequilibrados, simplesmente porque seus espíritos estão doentes e autossugestionados. Nenhuma influência espiritual, pois que esses ditos sábios limitaram tanto e tanto o campo dessa ação que, somente raríssimas vezes, a explicação espiritual tem lugar.
    O travesso e maquiavélico inconsciente nos dá, a cada dia, solenes desilusões aos de boa-fé que creem no comércio quase contínuo entre os encarnados e os desencarnados.
    Em que se fundamentam? Perguntarão, talvez, algum de nossos leitores. Pois o fundamento está na palavra de um fisiologista ou de um antropólogo de renome, e isso é suficiente no seu modo de ver. E tenham-se em conta que, muitas vezes, o sábio, que quer assegurar pertencente ao campo materialista e que, ante a força brutal dos fatos já explicados, se não quer perder a fama de sábio, de alguma maneira, prescindindo obviamente da alma e dos espíritos desencarnados e, por falta de outra coisa, dá asas a uma barbárie científica.
    Disso tudo, resulta que os sábios do Espiritismo quiseram quitar das obras de Kardec tudo o referente à obsessão e aos demais capítulos análogos.
    Esses são, portanto, os principais defeitos que adoecem a corporação espírita, dos quais é necessária a correção, se queremos, de fato, trabalhar com proveito. Aos sábios do cotidiano, falta-lhes a bondade; e aos bons, falta-lhes a ciência.
    Onde encontrar o meio termo, o verdadeiro caminho? Ele já está traçado até o momento e parece-me que, por muito tempo, já se encontra nas obras de Allan Kardec. Essa é a minha opinião, e assim a declarei solenemente no Congresso de Paris. Entre os seus membros, haviam eminências científicas e talentosos filósofos de primeira ordem.

M.Serrot

Tradução para o francês da La Revelación, da cidade de Alicante. Publicado no “Le Progrès Spirite”, “Órgane de Propagande de la Doctrine Spirite, fundeé par Allan Kardec, cujo editor chefe é A. Laurent de Faget, na edição de número 08, datada de 20 de Abril de 1901, no 7º ano de edição. Conforme original.