14. Psicografia - Conferência sobre o Espiritismo

    Antes do surgimento da doutrina espírita, ou melhor, da doutrina de Allan Kardec, que conta com um grande número de adeptos na França, a origem dos Espíritos se perdia na noite dos tempos. Neste momento, entretanto, não perderei tempo expondo os diversos sistemas que deduziremos com base no estudo das leis naturais, a fim de dar mais ou menos razão sobre a origem dos seres. Falaremos desse assunto, portanto, mais tarde. Neste momento, contentar-me-ei em assumir a evolução do Espírito a partir de sua entrada na humanidade; pois é somente ali que a sua consciência desperta e que ele começa a ser responsável pelos seus atos na medida de sua inteligência e de sua força moral.
    Os espíritas admitem que todos os Espíritos têm o mesmo começo. Simples e ignorantes, eles são tão somente iluminados com as primeiras chispas de uma consciência nascida. Dessa forma, irão, a cada instante, escolher entre o bem e o mal. Além do mais, são solicitados pelas condições da vida terrestre, condições essas eminentemente penosas e difíceis, a exercerem, sem cessar, suas inteligências, a fim de encontrar os meios para triunfar.
    Desse modo, os Espíritos apresentam à humanidade as suas condições nas quais se encontram inseridos. Essas condições são aquelas que continuadamente são resultados das forças de suas escolhas.
    Eles são obrigados a se libertar dessas condições com uma espécie de ginástica moral e intelectual e, graças a ela, adquirem, dia a dia, a experiência necessária. Com isso, fazem o progresso bem lentamente, mas num continuum, utilizando-o com o passar dos tempos; pois os séculos não são nada para um ser imortal. Eles alcançam a idade selvagem, a mais grosseira das idades, e a idade da civilização relativa, que constatamos ao redor de nós; entretanto, com novos esforços, continuam, pois, apesar dos novos séculos, eles conseguem chegar ao estado de Espíritos superiores. Em seguida, chegam ao estado de puros Espíritos. Após esse último estágio, nós os encontramos governando os mundos e empregando as faculdades transcendentes, que foram adquiridas por intermédio do esforço de suas penas.
    Aqui está, nesse conjunto, o quadro do destino dos Espíritos ou dos homens, que é tudo uma coisa só.
    Mas, de fato, esses acontecimentos descritos não ocorrem de uma maneira assim tão simples e regular, menos ainda sobre nosso globo. Podemos, sem dúvidas, exemplificar que certos Espíritos, animados de boas intenções, cruzando todas as etapas sem jamais se desviar do bem e sem se preocupar com outra coisa que não a causa do seu progresso em tudo, estão sempre, pois, escutando a voz de sua consciência. Esses espíritos desejáveis, quando encarnados, não possuem as dúvidas que acometem os espíritos menos evoluídos, mas em outros mundos, cuja constituição estará de acordo com a sua própria característica de um ser de boa vontade.
    Ao espírito novo parece que a sua permanência na terra está atribuída a esses Espíritos, e menos ainda sobre ele mesmo. Ao mudar a cada instante entre o bem e o mal, escuta, com frequência, a voz de suas paixões em lugar da voz da sua consciência, que negligencia a cada instante. É então aí que intervém a lei moral e que a pena de talião é aplicada ao culpado, às vezes, na sua própria existência em curso, mas, em muitos dos casos, infalivelmente na existência seguinte. Na morte, o Espírito desencarna, ao retornar na erraticidade, ocasionalmente a uma expiação mais ou menos apenável, segundo a natureza de suas faltas, mas uma expiação toda moral, que ele aplica a si mesmo, no lugar da consciência, saindo de seu adormecimento, infringindo-se essa expiação. Entretanto, isso não é tudo. Ele deverá reencarnar depois de um tempo, mais ou menos longo, passado na erraticidade, então ele suportará, a seu turno, os males e as injustiças que tenha feito sofrer aos outros.
    O Espírito, em suas primeiras existências, está ainda com a inteligência e o senso moral muito pouco construídos. A dor o fará distinguir entre o bem e o mal, uma vez que ela será oriunda do racional e estará acrescida de um sentimento real ao invés de ser tão somente uma resposta puramente instintiva.
    A justiça eterna não solicita jamais o que não pode ser dado. As exigências estão em conformidade com o desenvolvimento que o Espírito adquiriu. É bem sabido que certos atos passam impunes, como os dos selvagens, que terão a ocasião, em expiações terríveis, com os civilizados. Nada é absoluto nessa ordem de ideias, compreendam bem as razões; pois, para ser culpado novamente, o espírito terá que compreender que agiu mal. Entendam, portanto, bem essas razões, pois, mais uma vez repetimos: nada é absoluto nessa ordem de ideias.
    O que precedeu até aqui bem demonstra o mecanismo do progresso. De existência em existência, o Espírito desenvolve suas faculdades intelectuais através do trabalho, no que deve forçosamente, salvo um pequeno número de exceções, ser livre para fazê-lo. Ao mesmo tempo, seu senso de moral torna-se claro, desenvolvendo-se pelas suas boas ações, que tornam seu progresso mais rápido; como também pelas suas más ações, que clamam, à sua mente, uma expiação inevitável, tornando-se, apesar disso, fontes muito úteis para a autorreflexão. A cada nova experiência, o Espírito encarna com uma bagagem moral e intelectual mais completa, com um desejo para o bem maior, com uma tendência mais crescente de evitar o mal. É assim que, depois de um número considerável de encarnações terrestres, que são provadas, ele chega a um dia em que acaba por escolher sempre o bem e, por mérito, vai encarnando em mundos mais felizes e mais avançados.
    Vemos, ao expor esse sistema, que o homem é o filho de suas obras. Apesar disso, seu progresso será mais lento, caso não receba um pouco de socorro de seus irmãos mais avançados. Assim, um Espírito-guia preenche essas condições, vinculando-se a cada um para ajudá-los, na justa medida, a bem suportar essas provas. Esse guia, entretanto, não é para mudar a sua vontade, ou o livre arbítrio do progresso, pois que nada pode substituir a sua própria vontade.
    Creio, até aqui, ter-me feito compreender claramente como se realiza o progresso no universo, qual seja: por intermédio do trabalho e da experiência. Isso é assim em todos os níveis da escala, mas com certas diferenças que chegam devido a certo grau de desenvolvimento intelectual e moral. O Espírito não precisa ser estimulado para a necessidade de trabalhar, nem mesmo precisa temer o castigo para fazer o bem. O desejo de se instruir e a felicidade que experimenta no trabalho, ou ao ver felicidade dos outros, são o futuro, são as mudanças necessárias, cuja força aumentará seu senso, à medida que se elevará em direção ao alto da espiritualidade.
    Devo deixar ir adiante uma advertência que não faltará de tê-la feita. Entre aqueles que, sei eu, não estão familiarizados com essas novas ideias, haverá alguns com bastante dificuldade de admitir a pluralidade de exigências corporais, pelo motivo de que não se recordarão de tê-las vivido.
    Se já tivemos outras existências, dirão, nosso Espírito tem de guardar a recordação, a menos que esta aqui, talvez, tenha sido a primeira. Nesse caso, o sistema que venho expor não poderá se sustentar, pois poderemos fazer compreender o porquê de ele se encontrar ao mesmo tempo encarnado sobre a terra com Espíritos de diferentes graus de sabedoria e de moralidade. Ele fará tudo o que for necessário para que uns ajudem mais nas vivências do que outros, já que não é que por terem um maior número de existências que poderão adquirir mais informação intensamente sob suas duplas relações. Isso acontece, porque, para explicar que pode e existe, no mesmo meio, os genes felizes e os outros, os genes malvados. Sem favoritismos e sem injustiças, o próprio espírito deve ser capaz de poder dizer que uns são vindos para uma nova vida, a fim de expiar as suas faltas anteriores; enquanto que outros venham sem nada a expiar, e, portanto, somente aqui estão com a finalidade de fazer um novo progresso. Não podemos admitir que a existência dos homens que vemos sobre a terra seja a primeira que é dada a cumprir, sem sermos, com isso, obrigados a abandonar todo o nosso sistema. Vejam, pois, que podemos nos opor à objeção tirada da ausência de memória, que nós, anteriormente, havíamos formulado.
    E, antes de mais nada, se estamos com a verdade, é evidente que a maior parte dos homens que venha a encarnar sobre a terra tenha um passado que é longe de ser exemplo de censura. Um certo número, inclusive, é de criminosos. Se as recordações das existências passadas estivessem conservadas nas encarnações novas, elas seriam uma pedra terrível, um grande obstáculo para as boas resoluções no momento em que o Espírito viesse a ser abordado por uma nova prova. Essas recordações teriam, portanto, pesado enormemente sobre o bem das maldades, obstruindo, assim, as disposições ao bem, pois, para nós, a recordação dessa prisão seria um obstáculo quase insuperável para a modificação do prisioneiro liberto. Então, por esse grande motivo, a saga eterna editou as leis de nosso ser quanto à possibilidade desse esquecimento. Vocês conceberão facilmente que a mudança de organismo corporal faz um preparo suficiente para eliminar temporariamente do Espírito a memória do passado. Essa memória que se lembra, periodicamente, quando no estado de desencarnação.
    Existe, ainda, outra razão, que faz com que a perda da recordação das antigas existências seja uma escolha útil. Com efeito, se o Espírito encarnado se lembrar de suas vidas passadas, ele conhecerá perfeitamente todas as consequências de suas faltas, e, dessa forma, será menos embebido das paixões indomáveis, agindo, portanto, somente pelo ganho que, porventura, possa adquirir. Essa forma de agir, entretanto, não é a correta, pois seria absolutamente insuficiente como prova de adiantamento do Espírito.
    O Espírito, perdendo a recordação das vidas passadas, retorna à vida carnal com a bagagem intelectual e moral que adquiriu através de seus esforços, e, de forma evidente, não pode provar que se tornou melhor a não ser que faça o bem espontaneamente, através das boas tendências que resultem de sua aquisição anterior, uma vez que, caso ele considere como sendo uma estratégia premeditada, haverá tão somente o interesse pessoal em fazer o bem.
    Eu sei bem que o simples conhecimento da doutrina que venho a expor o fará sofrer, se a adotar de boa-fé, por que o fará compreender que a conveniência não repara o estrago feito, o qual será, mais tarde, para ele, uma causa infalível de sofrimento. Dessa forma, entretanto, não será a mesma coisa, uma vez que não exercerá a mesma pressão que haveria caso a recordação ocorresse com as suas próprias experiências vivenciadas intensamente.
    Nós, os Espíritos, podemos ajudar, afirmando que aqueles que chegarem a nós e se identificarem com as novas ideias que estamos mostrando serão já muito avançados moralmente, por não se tornarem culpados de suas faltas graves.
    Se não tiverem esse grau de força moral, eles retornarão instintivamente à nossa doutrina, porque sentirão que não puderam assimilá-la sem fazer o sacrifício de suas paixões.

Continua....