15. Psicografia - Conferência sobre o Espiritismo Final

    Só me resta, ainda, para continuar, resumir, em algumas palavras, a dimensão prática do Espiritismo.
    Desde o momento em que admitimos que o destino do homem é aquele já exposto anteriormente, o ponto de vista secular da humanidade muda forçosamente. O interesse pessoal não é mais a tendência. O objetivo pessoal, a ser perseguido por cada um, deverá ser o menos material possível.
    Atualmente, cada um acredita ter interesse em progredir, tanto que privilegiam seu próprio luxo, para poder aumentar seu usufruto na mesma proporção. Os interesses materiais dominam tudo. Para o espírito, porém, não é o mesmo. Ele compreende que a vida terrestre não é mais do que uma prova, na qual deverá renovar bem a sua fé e, também, servirá a ele como uma ginástica moral. Ele compreende que a luxúria é uma forma particular dessa prova, que, por ocasião, está no cerne de um dever que lhe importa cumprir bem. Ele está convicto de que a vida não serve apenas para propiciar-lhe benesses, que não se deve tão somente usufruir materialmente da vida, apenas para ficar acima de seus irmãos, seus iguais na humanidade. Ele sabe que a vida serve para que ele avance intelectualmente e moralmente, tornando-se um simples degrau dessa escada evolutiva. Enfim, ele vê, claramente, o objetivo de felicidade que busca instintivamente, e sabe, também por instinto, que essa felicidade não está, de fato, sobre a terra.
   Apesar disso, ele compreende que, em suas futuras condições, por ser uma criatura de alma imortal, a felicidade será o resultado de seu progresso na ciência e na moralidade e, consequentemente, em poder de ação. Uma lógica inclemente não tardará a lhe fazer imprimir sobre a sua bandeira os dizeres “progresso moral”, e será essa a frase que o guiará seguramente pelo caminho.
   Essa evolução será facilitada pelas luzes, aquelas que são propiciadas pela doutrina espírita, a que lhe fornecerá esclarecimentos sobre todas as faces dos problemas humanos. Ele compreenderá que cada ser espiritual passa por todos os estágios um grande número de vezes, e em todas as condições sociais, como um testemunho, simplesmente, e, de acordo a sua fé, como prova e como expiação. Ele saberá que foi, e será ainda, pobre e rico, forte e falível, chefe de empresa e trabalhador, e como esse número que acompanha as existências penáveis e perversas é muito grande, ele não duvidará de que será exposto e irá passar mais de uma vez por essas existências, bem como por suas consequências, e que, em trabalhando para a sua melhora, de sorte que esteja realizando isso nas classes desfavorecidas, assim será por ele mesmo que trabalhará. Essas noções tanto assentarão a fraternidade sobre bases inquebrantáveis quanto golpearão, até a morte, todas as pretensões orgulhosas.
   Suponham, por um momento, que o Espiritismo é admitido pela grande maioria de uma nação. Do primeiro ao último, ao final de cada geração, os antigos preconceitos terão desaparecidos, e não restará mais, aos olhos da opinião pública, que haja uma outra aristocracia, não a tradicional pelo nascimento nobre, mas, sim, uma nova, uma que é o resultado de um maior avanço moral e intelectual. Essa aristocracia, ao saber que não adquiriu a sua atual situação pelo nascimento, mas sim pelo esforço e pela dor de incontáveis existências, saberá, portanto, fazer sua retribuição para mais ao alto, dando a mão aos seus semelhantes, aos menos adiantados, guiando-os na via da Ascenção Eterna. Todos ascenderão à rota do progresso, de mão em mão, e, quando estivermos assim, creiam bem, meus queridos ouvintes, a questão social estará resolvida.
   De fato, a justiça social não consiste em fazer do sábio, do literato, do poeta, igual ao ignorante e ao homem rude e material. Apesar disso, ela reinará sem a contestação possível, da maneira mais perfeita, ainda que a principal preocupação dos primeiros será a de ajudar os outros a subirem até nós, os espíritos mais evoluídos, e a segunda preocupação será a de aproveitar, com ardor e sem inveja, as novas facilidades. Eu digo e repito: sem inveja. De fato, porque serão elas invejosas e invejadas. Eles saberão que os irmãos mais adiantados que nós passaram pelos mesmos caminhos, os quais sabemos, ainda penáveis, e saberão, também, que com a coragem e a boa vontade, eles chegarão rapidamente ao seu nível, filhos de suas obras como foram os antigos.
   Aí está, meus caros ouvintes, a parte prática do Espiritismo. Ela é imensa, e, sendo bem compreendida, proporcionará a coragem e a esperança aos mais desfavorecidos, aos mais perversos, e será para todos o mais poderoso encorajamento ao bem. Assim, neste estado atual, ofensivo, vilipendioso, havendo perseguidos de todas as partes, o Espiritismo terá este poder infalível de devolver a todos nós, que o adotarmos sinceramente, vivendo a mais honrada vida, menos perversos, se vocês assim o quiserem, por que ele lhes fará compreender a causa de seus sofrimentos. Por ele, saberão que elas não são mais do que coisas passageiras, temporárias, enquanto que, pelos seus esforços, mantidos através do progresso, poderão assegurar um futuro com felicidade interminável. Uma felicidade que não será, de maneira alguma, negativa, como aquela que o Cristianismo promete aos seus, mas, sim, uma felicidade positiva, consistente, dentro da argumentação constante de seus conhecimentos diversos e de suas qualidades morais, e, sobretudo, dentro do costume de se tornar mais e mais ativo, fazendo seus objetivos úteis aos seus irmãos na humanidade, até o momento em que eles serão suficientemente elevados através da escala dos seres, para, enfim, poderem participar, a seu turno, do governo dos mundos.
   Esse é o destino sublime designado ao homem pelo Espiritismo. Partindo de um grau, o mais infinito, e filho de suas obras, auxiliado pelos seus irmãos mais adiantados, ele ascende, penosamente, de esforço em esforço; mas com uma rapidez diária crescente, até aos cumes onde a criatura deverá colaborar com o Criador. Esse, entretanto, não será um favor ilícito a qualquer pessoa, uma vez que cada um, a cada dia, faz a sua parte, e a merece, e se ainda podemos duvidar alguma vez aqui na terra, é por que o nosso julgamento ocorre somente pelos fatos de uma única existência isolada, já que ainda ignoramos todas aquelas encarnações que nos precederam.
   A injustiça, portanto, é apenas aparente. Os espíritas o sabem hoje em dia e sabem, também, que os povos mais avançados puderam, em alguma geração, esclarecer sob essa nova luz, fazendo desaparecer mesmos essas injustiças aparentes, porque, sob a pressão eminentemente moralista de sua doutrina, o nível moral dos povos civilizados será, em breve, aceito de uma maneira geral, e as provas de expiação, se comuns atualmente, não terão mais razão de existirem.
   Esse magnífico futuro atingirá a todos aqueles que estiverem como protagonistas do bem da humanidade. Em todos os casos, essa perspectiva nos conduzirá a verificar, por nós mesmos, ao tentarmos qualquer esforço, se existe algo concreto no Espiritismo, ou se não existe nada. Não será digno de homens sérios a ação de rejeitar algo sem um apurado exame, uma escolha nova e, sobretudo, de sobrecarregar em profusão, sem o conhecimento, suas brumas falaciosas e suas indiferenças com o menos prezado. Nenhum estudo é inútil. Todo estudo, se for feito seriamente, traz, em si mesmo, sua recompensa, e não é jamais um tempo perdido. Não será ainda mais do que o ser convencido por si mesmo de que o Espiritismo do qual tanto falamos não é um conto. Não queremos propiciar nada mais do que inspirar confiança, vocês devem saber com o que se atua. Espero encontrar, entre vocês que me escutam, aqueles espíritos prudentes, que julgarão que tudo aquilo que toca ao problema do destino do homem não o é alheio, tampouco não saberá ser indiferente. Não pretendo forçar sua convicção. Pretendo, entretanto, na continuidade a esta conferência, afirmar àqueles que intentam a uma resolução, a de julgar seriamente e avaliar verdadeiramente o Espiritismo por si mesmos, que não lamentarão o tempo que irão consagrar a esse estudo. Isso eu posso lhes garantir.

Tradução livre do DITADO recebido pelo pequeno grupo bisantino, publicado no “Le Progrès Spirite”, “Órgane de Propagande de la Doctrine Spirite, fundeé par Allan Kardec, cujo editor chefe é A. Laurent de Faget, na edição de número 07, datada de 05 de Abril de 1901, no 7º ano de edição. Conforme original.