16. A Revelação do Espiritualismo

    Nós somos as testemunhas de que, passados alguns anos, esses movimentos alternativos – cuja história filosófica oferece tantos exemplos, bem como as maravilhosas descobertas feitas após cinquenta anos pela legião de sábios que se arremeteram ao estudo da natureza – tenham dado aos homens de ciência uma autoridade, uma força moral imensa. Podemos identificar que suas demonstrações rigorosas, suas análises minuciosas, a clareza e o método que aportam em suas pesquisas são claramente as formas mais seguras para alcançar e descobrir a verdade. E, de fato, quando esses homens ficam no domínio das pesquisas positivas, ninguém é bem-vindo a contestar a sua legítima autoridade.
    O século XIX teve esta honra, a de dar ao espírito humano os métodos rigorosos para estudar os fenômenos naturais. Chegamos, seguindo suas indicações, ao conhecimento mais e mais preciso das leis que dirigem a matéria e a evolução dos seres vivos. Apesar disso, certos espíritos aventureiros não estão contentes com os resultados obtidos. Ofuscados pelos sucessos obtidos no estudo do mundo inorgânico e, igualmente, do mundo orgânico e pulsante, acreditam poder ir mais longe do que isso, qual seja essa distância: a de explicar as leis da inteligência através do mesmo funcionamento mecânico que eles creem encontrar por tudo na natureza.
    E é nesse momento que eles abandonaram o método positivo que tinham erigido à sua grandeza e, dessa forma, aportaram as suas ideias preconcebidas, vindo a negar toda espiritualidade no e do homem e, por fim, toda a direção na e da natureza. Tomando sempre o efeito pela causa, sendo, assim, fanáticos em suas negações, como as religiões são nas suas afirmações. Nesse caminho, eles não estão vendo, com sua inteligência, que um novo tipo de energia está no Universo, provocando uma confusão de leis que se equilibram umas nas outras, tendo seus fundamentos unicamente na matéria.
   Não obstante os fatos, são refratários a essas conclusões. A ciência não tem o direito de fazer hipóteses inverídicas, pois, dessa forma, ela se interdita, sob pena de perder toda a autoridade, de especular, assim como fazem os metapsíquicos. Por isso, ela deve sempre ser contida, e suas afirmações precisam ser desprovidas dessa visão única. De outra forma, ela seria, então, embargada de formular suas conclusões sobre a origem dos seres e, talvez, de tudo o mais, podendo ela deixar de entrever em qual via as pesquisas devem ser possíveis.
    Entretanto, temos visto Jakob Moleschott, Eduard Buchner, Carl Vogt e Hoeckel afirmarem, dogmaticamente, que a matéria é a única realidade existente e que, portanto, é loucura crer em uma realidade espiritual no Universo. Seguindo esses sábios, seríamos, então, tão somente seres transitórios.
   Para eles, a seleção teria desenvolvido um novo mundo de energia que nos daria a consciência de nós mesmos; mas essa consciência, nascida com o organismo, da qual ela seria a sua mais alta manifestação, morreria ao mesmo tempo em que o corpo perecesse. Além disso, essa consciência estaria fora de todos nós, sendo inconsciente, muda, cega e dominada passivamente pelas leis materiais. Em resumo: o universo que é vida seria, para eles, simplesmente a matéria inerte em suas inomináveis manifestações, estando, dessa forma, nula em pensamentos e diretrizes, nula em inteligência consciente e, ao sobreviver ao organismo que a produz, nem mesmo saberá de sua própria existência.
   A consciência humana protestou contra essas doutrinas, pois ela precisa se convencer dessa realidade.
   Esses sabidos não podem propagar suas teorias devido a um equívoco que eles cuidadosamente falam.
   Entretanto, sua autoridade é indiscutível naquilo que ficar dentro de seu domínio de ciência pura.
   Apesar disso, há desvios duvidosos quando essa ciência pura quer filosofar, pois, nesse campo, eles são, também, inexperientes, seja lá quem eles sejam. Se eles adotam essa postura, estão abusando de seus conhecimentos científicos, por fazerem com que os ingênuos creiam que as suas deduções filosóficas tenham tanto valor quanto suas afirmações nos domínios da ciência. Dessa forma, mais uma vez acabam por cometer um erro fundamental, o qual devem começar a repensar.
   Se eles se apercebessem de que a alma humana não é uma resultante da vida, mas, sim, que ela tem uma existência própria, sendo, portanto, absolutamente independente dos corpos humanos, estabeleceriam experimentalmente a sua vez. Em outras palavras: ao regressarem à verdadeira tradição científica, saberiam que a alma existe durante a vida e que ela pode separar-se momentaneamente dos corpos; entenderiam que os fenômenos de desdobramento, chamados telepáticos, são de uma constatação diária; compreenderiam que a visão a distância, durante o sono magnético, não pode mais ser racionalmente contestada; reconheceriam que essa alma-anima joga um rol dos mais importantes na comunicação do corpo psíquico; que a vida mental, com a conservação do conhecimento, seria impossível com a hipótese materialista; enfim, considerariam que, depois da destruição total do corpo psíquico, a alma sobrevive com todas as suas potencialidades. Isso tudo está demonstrado pelas materializações, como as modelagens do períspirito e as marcas deixadas na terra argilosa ou a flor de enxofre, pelos pesos das aparições tangíveis, pelas fotografias das aparições, em suma: através de todas as provas científicas que são verdadeiramente exigidas em semelhante situação.
   Após trinta anos, os espíritos se esforçam em semear essas virtudes, de render evidências a todos, de impactar o asceticismo e a apatia das massas. Se esse progresso não é visível por todos os olhos, não é por ser menos verdadeiro, uma vez que se traduz pela revelação espiritualista de onde nós entendemos atualmente as primeiras crises. Esse retorno à tradição espiritualista, sem dúvida, se manifesta por uma vaga elan de misticismo. Não devemos esquecer de que as massas são atavicamente habituadas a simbolizar suas crenças do além através de fórmulas religiosas; mas o trabalho de separação entre a fé antiga e a crença moderna é necessário. Não podemos mais crer como se cria na idade antiga, já que a era do credo quia absurdum passou, e o futuro se abre resplandecente pela filosofia que, apoiando-se na ciência, dará a demonstração positiva da existência da alma e de seu futuro perpétuo.
   O quê? Quem melhor que os espíritos se qualificariam por essa grande obra?
   Não se pode romper com a doutrina espírita, pois não devemos esquecer que ela não está edificada com todas as suas peças, que ela não é um conjunto de doutrinas vindas de um bloco sabedor, já pensado, já preconcebido pelo seu autor. Em vez disso, devemos lembrar que ela é um admirável monumento construído pela cooperação de cada espírito. Da soma de todas as informações sobre o mundo invisível oriundas de uma enquete coletada pelo mundo inteiro, ela despeja uma soma de certezas sobre a vida futura que, de forma inquebrantável, traz o fundamento de uma nova filosofia.
   Não devemos dizer, como já o dissemos, “creiam, pois temos a verdade absoluta revelada por Deus mesmo”. Uma vez que somos muito modestos, dizemos que o conhecimento resulta de nosso trabalho, de nossos estudos e, por isso, afirmamos que a vida espiritual é a continuação dessa existência no mundo material. As condições físicas são as que variam, mas a vida psíquica não é interrompida. Encontramos, no dia seguinte ao da nossa morte, aquilo que nós mesmos fizemos. A passagem da terra à erraticidade não dá ao espírito qualidades transcendentais. O ignorante não mudará para sábio; o cruel não mudará para bom. Existirá, no mundo espiritual, seres em todos os graus de desenvolvimento intelectual e moral.
   Dessa forma, a ausência do corpo físico não agrega ou mancha em nada a alma. É uma falsa interpretação darmos aos mortos faculdades maiores que aquelas que eles possuíam no mundo físico. A realidade é que a alma, no espaço, é regida por um outro modo de vida diferente daquele do mundo físico em que existimos, mas ela não ascendeu ainda à transformação íntima pela sua passagem para o lado de lá.
   Constatamos, experimentalmente, que o inferno e o paraíso não existem, que são fantasias místicas que ninguém vem confirmar. Essas duas ficções não são jamais tidas como realidades, pois todos os espíritos que se comunicam afirmam a sua livre vida dentro da erraticidade. Eles não são confinados, sendo malvados ou bons, dentro de um lugar especial. Eles estão à nossa volta e vivem em uma vida espiritual que possui, ela mesma, a sua punição ou a sua recompensa.
   Mesmo essas palavras que somos forçados a empregar não correspondem exatamente à realidade.
   Existe um estado feliz ou infeliz, na continuidade, conforme as leis da consciência sejam ou não obedecidas. O grau de felicidade e da pena é proporcional ao avanço espiritual da alma.
   Uma vez que se afirme que existe a grande Lei da Justiça, a qual rege todos os seres, constatamos que cada esforço em direção ao bem, ao belo e ao justo é marcado por uma soma de gozos maiores, devido a um esforço soberano do espírito, pela felicidade íntima e profunda que provém de uma comunhão mais e mais intensa entre a criatura e a criação, entre o ser e seu meio. O Universo é infinito. Em seus princípios, ele é salpicado de mundos inomináveis e, sobre cada um deles, existem os seres inteligentes ligados a todos os graus de avanço, desde o estado original até a quase perfeição. Nós temos, diante de nós, as perspectivas insondáveis, e a vida universal mostra seus maravilhosos esplendores diante de nossos olhos deslumbrados. Uma vez que nós viveremos eternamente, como cada vida aporta seu contingente progresso, por mínimo que seja, somos chamados, fatalmente, pelo fato de que existimos, para sermos melhores, para engrandecermos moral e intelectualmente, a fim de alcançar uma felicidade tanto maior, tanto mais intensa que nos capacite a sermos principiantes nas mesmas proporções.
   Cada esforço agrega alguma coisa à nossa personalidade. Todas as aspirações para o bem, o belo, o justo possuem neles a sua recompensa. Não que uma força qualquer intervenha para nos transformar, mas a modificação se opera em nós e se fixa na alma e no espaço. Temos as percepções e, por conseguinte, as alegrias que são mais profundas à proporção que nós somos mais livres do egoísmo, que é o inimigo, o lastro que nos impede de elevar-nos para as regiões resplandecentes da fraternidade do amor universal.
   Essas concepções não são as ideais. Elas não são mais do que simples aspirações dos desejos que esperamos serem realizados. Elas são as verdades absolutas reveladas pelo estudo do mundo espiritual.
   Se as mencionamos em paralelo com os ensinamentos religiosos, o seu esplendor eclipsará todas essas pálidas invenções, assim como o sol dissipa as densas trevas da noite.

   Gabriel Delanne
   Tradução livre do publicado no “Le Progrès Spirite”, “Órgane de Propagande de la Doctrine Spirite, fundeé par Allan Kardec, cujo editor chefe é A. Laurent de Faget, na edição de número 11, datada de Novembro de 1895, no 1º ano de edição. Conforme original.