17. A vida e a Morte

    Eu adentrei em meu jardim, isolando-me de meus jovens filhos, cujos jogos ruidosos e cujas brincadeiras animadas não eram fatos que propiciavam o momento, que era o do trabalho de pensar. Os pequenos pássaros saltitantes, de galho em galho, sob os alegres raios do sol, faziam mil piruetas alegres, surgindo de todos os cantos, superando o verde da vegetação com os seus coloridos azuis, brancos e amarelos, enchendo a primavera de sorrisos e contentamentos. Ao alcançar o ponto culminante de meu jardim, neste pequeno canto verde, florido, onde eu almejo evocar a Musa, encontrava-me bastante longe de todos os barulhos, para, enfim, poder impregnar-me na profusão da sabedoria. A calma profunda da Natureza dava lugar às minhas fantasias e, pouco a pouco, esquecia-me da Terra para contemplar a abóbada azul, aprofundando-me onde os olhos da nossa alma procuram a visão de Deus.
    Uma revoada de pombas surgiu, neste momento, em meio ao horizonte; e eu, não sei o porquê, imaginei, ao observá-las no voo, como sendo o voar de almas humanas, a partida precipitada dos espíritos das pessoas cujos corpos foram consumidos no incêndio do Bazar da Charité. Foram almas infantis de jovens filhos e nobres damas, cujos envoltórios materiais foram destruídos pelas chamas.
    Vocês, pobres almas, passaram diante de mim, comovidas ainda e já sorridentes, junto a esse grupo de pombas que fogem da terra para o céu. E quando vocês tiverem desaparecidas no horizonte, eu me esforçarei, ineficientemente, para dar outra direção aos meus pensamentos. Revi, então, os escombros esfumaçados, aqueles nos quais seus pobres corpos estavam amontoados. Entendi, assim, o crepitar das tábuas e das cadeiras torturadas pelo fogo e vi passar, como numa nuvem de fumaça e de chamas, os nobres, essas figuras enérgicas dos socorristas que disputaram, heroicamente, um sem número de vítimas contra a própria Morte.
    O que poderia dizer, Deus, quando esses horríveis acontecimentos golpeiam-nos em nossos corações? Como entender esses horríveis e reais fatos em nossa crença como uma eterna e soberana justiça? Por que esses desastres? Que fizeram essas crianças e essas mulheres por merecerem um castigo assim tão terrível?
    E a voz íntima, aquela que fala aos felizes desolados, por identificar minha abatida coragem, a voz da Musa, ela se elevou docemente na minha alma e disse:

- Por que dar mais importância do que o necessário à rápida passagem que constitui a existência do homem aqui embaixo, na Terra? A cada hora que soa, há uma colheita de cadáveres, e, de um ponto da Terra ao outro, o toque dos mortos se alterna, a cada segundo, com o canto da vida. Vocês vivem para morrer e morrem para viver. Você ainda não sabe disso? O que é a morte? Não é, pois, somente uma mudança de forma? Por que, então, se entristecer desse modo? Sim, eu o sei, o que lhe preocupa, como também a muito de seus semelhantes, não é a morte por ela mesma, mas sim o sofrimento que a ela é sempre precedido, ou, o que é mais apropriado: aquele sofrimento atroz que está contido nas vítimas cuja sorte você lamenta. Apesar disso tudo, pergunto-lhe: você sabe que é por causa de uma longa vida que são trazidas as tristezas dolorosas? Você sabe que, diante do espetáculo de dores que somente lhes resta aceitar, a maior parte não prefere a morte breve que libera, mas, sim, a vida lenta que tortura?
    Pois, se essa prova é terrível, é sobretudo por esses sofrimentos catastróficos, que evitamos perdoar pessoalmente, e que, por isso, temos visto morrer uma mãe, uma esposa, as crianças adoráveis. Você deve arrepender-se e lamentar, dando suas lágrimas de compaixão a esses mártires da vida, que são mais cruelmente punidos do que aqueles corpos que foram devorados pelas chamas da rua Jean Goulon.
    Em seguida, fiquei só dentro da casa muda que, em outra época, já esteve toda cheia de gritos jovens.
    Não tinha nem mesmo um pouco de cinzas entre as mãos, essas cinzas, último vestígio da vida, efêmera relíquia de amor, que vai desaparecer como tudo o mais. Fiquei ali, sem nem me ter inclinado sobre a sombra do abismo onde desapareceram os seres amados, sem nem mais entender as cinzas à sua superfície, sem nem mesmo emitir um grito de horror ou um lamento desesperado. Detecta-se, por tudo isso, o vazio absoluto, o nada das coisas daqui de baixo. Não seria, então, esse o sofrimento o mais intenso e o mais profundo?
    Mas vocês o sabem, vocês que vieram a viver sob um globo atormentado, sob uma terra de provas.
    Vocês têm méritos, para seus atos cumprirem as existências precedentes, de encontrar neles as lutas, os perigos, os sofrimentos e a morte. Não acusem, então, a Providência, não mais, daquilo que é a consequência de seus atos anteriores, e, sobretudo, não fixem um preço muito grande pela existência material deste mundo. Elevem-se através do pensamento para um mundo melhor, preparem, assim, a sua admissão, quando a hora vier, para lhes tirar da Terra. A vida aqui embaixo não é mais que um ano sem fim da cadeia de existências, e todos aqueles que nós amamos serão encontrados nas vidas renascidas.
    Seus defeitos anteriores, as faltas que vocês cometeram, tudo isso tem necessidade de uma reparação, de uma expiação, por isso submetam-se e esperem. A bondade do Criador revelar-se-á nas sucessões de existências que permitirão a vocês de tender, um dia, ao extremo limite do aperfeiçoamento humano, o que é a demonstração firme da eterna felicidade.
    Quando você observar um grupo de almas cujo sofrimento acabou juntamente com a brusca cessação de suas vidas corporais, você conseguirá perceber, se for atento, que elas estão se elevando, livres e radiantes, na serenidade do espaço, onde subirão ao belo, ao justo e ao verdadeiro.
    Digam vocês que o sofrimento dessas almas encontrou seu fim e que mil espíritos gloriosos e bons acompanharam-nas em sua magnífica ascensão para o ideal infinito.
    Depois dessas palavras da Musa, fiquei pensativo por um momento, dividido entre a esperança e a dor.
    Qualquer coisa em mim murmurava ainda contra o inexorável destino.
    E a Musa, então, disse-me:

- Oh, pobre espírito da Terra, quando então consentirás tu a te elevar, de um só golpe de asas, daqui de baixo, dos ombros de mártir e da própria morte, para adorar a esplendorosa e deslumbrante vida eterna?
    Tu te agarras a este globo como se devesse e morasse sempre nele. Tu não pensas que esta vida material que tu tens, venha ela a triunfar ou a cair, tu não sabes ver o ponto sucessivo e encadeado dos adoráveis destinos sucessivos e universais? A vida perdida é um sorriso que se suprime, um raio que se obscurece; mas a eterna sucessão de existências é a plenitude de todos os sorrisos, o foco de todos os raios. Dentro da criação, nada jamais se perde, tudo, na verdade, se transforma. Os átomos do corpo saltam continuamente sob uma nova forma, que é a sua evolução na matéria, enquanto que as aspirações das almas dos mártires são encontradas mais nobres e mais puras do outro lado da tumba. Deus sorri, nesta hora, e ouve os hinos de amor dessas vítimas agradecidas. Enquanto que vocês acusam a justiça divina, elas, as almas dos mártires, imploram por vocês. Elas veem a paz e a harmonia e somente se entristecem pela dor daqueles perdidos que estão sobre a Terra. Elas são felizes, enquanto que vocês gritam sob o látego da dor. Coragem a todos, esperança a todos. Os vínculos, se rompidos, são reformados, e o tempo cicatriza todas as feridas do coração. Já o futuro, esse é aberto a vocês, ele é o berço que segue a tumba, o reconhecimento da vida depois da morte, a esperança sem fim. O aperfeiçoamento, portanto, continua, e a joia do rever atravessa todas as existências da alma.

- O Musa! Musa! Suas palavras são refrigérios aos nossos corações feridos, agradeço-a, ovaciono-a. Apesar disso, não seria possível pensar que todo o sofrimento é uma punição ou uma prova provocada pela intervenção divina e que, por consequência, as catástrofes, cuja Terra é o palco rijo, são semelhantes a uma vingança do Criador? Essa doutrina encontra, ainda hoje, a reprovação quase universal.

- Não! Deus não se vinga quando as leis eternas são acompanhadas com rigor. Deus é a bondade permanente e infinita; mas o homem tem o mal, aqui embaixo ou em outro lugar e, de súbito, as consequências são inevitáveis. Noutros lugares, o sofrimento não é considerado sempre como uma expiação. As mais altas personalidades são aquelas que, às vezes, são as mais sofridas. Não sabe você que as almas mais avançadas, as inteligências infrequentes dos grandes corações dos apóstolos são encarnadas aqui na Terra para acelerar a marcha do progresso humano? Joana d’Arc morreu na fogueira, Jesus sob a cruz, Sócrates bebeu a cicuta. É esse Deus que se vinga de suas admiráveis personalidades?
    Não, dado que elas, de menos, não tenham feito mais do que o bem!
    Mas o sofrimento e a morte são o destino obrigatório de sua terra inferior. Deus não pode mudar por sua causa as condições da vida sobre o globo que vocês habitam. Ele não pode fazer isso a não ser ampará-los em suas provas e chamá-los aos mundos superiores onde reina a harmonia, e onde o sofrimento expira.
    Quando a ciência dos homens se unir à fé, à razão e ao amor, a humanidade terá feito o maior de todos os progressos, e os malvados que desolam seu planeta se evadirão pouco a pouco. O mal tem por consequência a dor. Suprimam o mal moral, esclareçam a inteligência pelo coração e, com isso, vocês estarão bem perto de ver desaparecerem todos os males e todas as calamidades.

- Mas, em atender a isso, Musa, sofreremos sobre a Terra. Deveremos, então, assemelharmo-nos a aqueles ministros do Senhor que, com a fronte calma e de braços cruzados, assistem impassíveis aos eventos cruéis que se desenrolam? A mais bela religião do mundo não é aquela cujo principal dogma é a piedade?
    Um silêncio interior sucedeu a essas palavras de minha alma. Eu percebi que a minha derradeira questão restara sem resposta, e, triste, levantei lentamente a minha cabeça para o céu. Neste momento, como um clarão, vi a imagem resplandecente da Musa, que me sorria. Seu sorriso era tão doce, tão humano, tão fraternal que causava uma quietude a todo o meu ser; mas, singrando o sorriso dela, uma lágrima brilhante descia rapidamente...
    Boa e querida Musa! Sempre em tudo me consolando dos males daqui de baixo, mostrando-me a ascensão das almas através das provas da vida. Você é a celeste mensageira que chora, também, sobre as dores humanas!

    A. Laurent de Faget

Tradução livre do publicado no “Le Progrès Spirite”, “Órgane de Propagande de la Doctrine Spirite, fundeé par Allan Kardec, cujo editor chefe é A. Laurent de Faget, na edição de número 11, datada de 5 der Julho de 1897, no 3º ano de edição. Conforme original.