18. MINHA CONVERSÃO AO ESPIRITISMO - Parte 01

    Dedicada à Irmã Esperance, este escrito é a manifestação sincera dos acontecimentos que me conduzirão a aceitar o Espiritismo como religião racional e científica. H.M.

    Marseille, 12 de fevereiro de 1901.
    Desde idos tempos, o povo aceitou as religiões que lhe foram ensinadas, apesar da falta de análise em relação aos elementos que as constituem.
    A ignorância, na qual sempre estiveram as massas humanas, torna as pessoas submissas a uma dependência religiosa que, por sua vez, retarda todo o progresso, todo o caminho para a emancipação das classes sociais e todo o caminho para o conhecimento da verdade.
    Podemos dizer que as religiões, em geral, todas aquelas que têm estado presente e ainda estão em nossos dias, são um obstáculo ao progresso humano. A religião Católica, em particular, é nefasta à humanidade, pois ela prende os homens no obscurantismo simbolizado, sendo, portanto, o verdugo do pensamento humano.
    Eu mesmo não concebo, ao citar qualquer fase da história dessa derradeira religião, uma que seja ruim o suficiente para demonstrar sua influência nefasta sobre o espírito humano; seja pelo calvário que ofereceu à minha consciência, quando eu passei pela idade do discernimento, seja pelo fato do que me foi revelado pelos valores caros ao catolicismo dentro de seus ensinamentos pueris.
    Minha infância foi construída dentro dos dogmas dessa religião, cujo valor de sua doutrina eu, naquele momento, não tinha condições de julgar, uma vez que minha inteligência não estava, ainda, suficientemente desenvolvida, e, além disso, meus pais lá estavam para me impor uma obediência passiva, enquanto o padre me dizia “Creia e não procure aprofundar-se nos mistérios da Igreja, porque eles são sagrados”. Dessa forma, pouco a pouco, aqueles preceitos da religião ganharam minha razão e tiveram grande influência sobre o meu espírito, ao ponto de que minha crença tornou-se definitiva, tornando-me, dessa forma, um escravo de uma doutrina absurda e de uma seita poderosa. Esse, infelizmente, é o caso de todos aqueles que nascem nas famílias católicas e daqueles cujos pais não são, ainda, sacudidos pelo julgo que os mantém dentro da cegueira.
    Apesar disso tudo, certas circunstâncias desejaram que eu fosse emancipado da felicidade da tutela paternal e, com a idade de treze anos, afastei-me do lugar de meu nascimento, para, enfim, ganhar minha própria vida.
    A minha razão fez um imenso progresso desde o dia em que me senti livre para agir segundo as minhas inclinações. A miséria, as tribulações, as vicissitudes de todos os tipos me assombraram como meras decepções, isso tudo sendo um martírio que eu suportava, mas que, ao mesmo tempo, exercitava-me, de forma progressiva, a meditar sobre os problemas da existência. Possuidor de uma natureza insaciável pelo saber, eu buscava, de preferência, as pessoas mais instruídas e as mais velhas. Viajei e convivi com pessoas de diversos países, de diversas religiões, de vários costumes e de línguas diferentes.
    Dessa forma, fui esclarecendo-me muito sobre todas as coisas, mas, em particular, sobre a religião católica. Identifiquei, a partir das experiências com as outras doutrinas, que todas elas possuíam as mesmas bases fundamentais, ou seja, a crença na imortalidade da alma e na existência de Deus.
    A partir desses dias e dessas descobertas, os templos não têm mais para mim do que o atrativo de sua arquitetura. Da mesma forma, as crenças de todas as ordens religiosas são-me indiferentes. Além disso, não considero os representantes das religiões mais do que os exploradores da credulidade humana.
    Por mais que qualquer ministro religioso se esforce, se ele pregar o seu mandamento ao rigor da letra e, além disso, crer fervorosamente em tudo o que aplica, ele não é um ingênuo, mas sim um espírito limitado, uma vez que cria barreiras, censurando a busca pela verdade. Ele que estudou os fundamentos irracionais de uma religião e que entreviu a verdade não merece a censura por condenar os seus semelhantes a uma crença dentro de seus dogmas absurdos?
    A verdade deve ser livre, e o homem deve procurar pesquisar livremente, assim como é o seu dever divulgar suas descobertas a seus semelhantes.
    A verdade deve ter como base a mais séria experimentação científica, portanto não devemos crer em nada que não tenha sido positivamente provado.
    Malgrado essas máximas, não posso desfazer-me dos preceitos católicos, pois, como a maioria dos abusos dessa religião, eu fui obrigado a não a repudiar, já que nela fui batizado. Desse modo, ela me teve no momento em que eu nasci e acabou por me desenvolver em seu seio, pois um dos seus preceitos é: “Católico tu és nascido, católico tu ficarás! É inútil mudar a religião, visto que todas se valem!
Um axioma da Igreja Católica, enraizado profundamente para poder eliminar de meu espírito quaisquer questionamentos, é: “Creia e não procure se aprofundar, etc..
Eu amo muito a leitura e, principalmente, o estudo das ciências. Meu principal iniciador foi Camille Flammarion, por intermédio de sua bela obra “L´astronomia populaire”, a qual li com extremo interesse. A obra desse grande divulgador das ciências naturais será uma das mais úteis ao progresso humano, sendo a pedra fundamental do edifício científico erigido através da emancipação intelectual e moral dos povos.
O positivismo teve, para mim, um atrativo particular. Ainda na natureza, tudo demonstra que uma inteligência superior preside a todas as manifestações, o que me deixou próximo de negar a existência da alma e até mesmo a existência de Deus.
    Destarte, onde levar o espírito de uma religião que se opõe à investigação do pensamento humano que, naturalmente, anda em direção a um progresso e a uma descoberta da verdade?
    De fato, o raciocínio que me fiz para refutar Deus não está sem lógica!
    O que eu havia feito para suportar as misérias passadas e presentes? Se existe um Deus, por que ele me deixa sofrer assim? Então Deus não existe, ou, se existe, é cruel para mim e eu o odeio.
    Ter solicitado para nascer e suportar uma vida de sofrimentos? Não sei nada, mas se depois da morte existe ainda o inferno que, ao seu modo cruel, atenderá minha alma para amenizar os meus pecados, posso, então, admitir que Deus é bom e justo?
    Não, a lógica humana pode assimilar o resto dos seres vivos. Somos todos o resultado das forças naturais em movimento. Dessa forma, nascemos, crescemos e morremos. A vida do homem, portanto, é pequena, assim como a vida dos astros é grande. Todas as transformações sucessivas são originadas pelo movimento.
    O tempo, o espaço e o movimento são imutáveis e eternos. Deus não existe, não pode existir em nenhuma parte. Tudo o que existe é um efeito natural das forças em ação.
    O ser humano, como todos os seres vivos, é destinado a lutar para viver.
    Sua existência é um eterno combate e, ainda que sucumba, ele devolve à matéria os elementos que assimilou inconscientemente durante a sua formação.
    O instinto de conservação conduz o ser à sobrevivência de suas necessidades e esse efeito gera a reflexão que, por sua vez, gera o pensamento em sua sublime expressão.
    O fenômeno do pensamento humano se desola. Do corpo esgotado, ele se detém de funcionar.
    É desse modo que as teorias inevitáveis substituíram as teorias católicas no meu espírito, porque essas últimas não me são boas o suficiente a ponto de explicar o mundo aparente dos seres e das coisas.
    O nascimento não é um resultado negativo da doutrina católica. Essa doutrina não estaria tão somente se defendendo da procura da verdade com o intuito de reter todo o progresso, uma vez que teme ser destronada?
    Tendo aceito os dogmas do Catolicismo cegamente, sem análises, como são rotulados, não pude agir de maneira diferente de inteirar-me de seu valor.
    Quando neguei o catolicismo, acabei por também negar a existência da alma e a de Deus, porque isso, naquele momento, pareceu-me algo lógico a ser feito.
    Dessa forma, por ter sido construído num erro, não pude sair dele sem que eu caísse em num outro erro, porque meu espírito tinha sido alimentado de princípios limitados e contrários à lei imutável do progresso eterno.

    Segue... Parte 02

    Tradução livre do publicado no “Le Progrès Spirite”, “Órgane de Propagande de la Doctrine Spirite, fundeé par Allan Kardec, cujo editor chefe é A. Laurent de Faget, na edição de número 8, datada de 20 de Abril de 1901, no 7º ano de edição. Conforme original.