18. MINHA CONVERSÃO AO ESPIRITISMO - Parte 02

    Eu devo dizer, enquanto isso, que a Igreja Católica, a que me ensinou também o Cristianismo, teve sua parte de méritos na minha educação, para que uma parte de sua moral influenciasse eficientemente sobre meu espírito, dirigindo-o para um ideal humano e social.
    Em muitas ocasiões, eu escutei falar acerca do Espiritismo, mas muito vagamente e de uma forma muito imperfeita. Por não compreender a sua proposta, cheguei ao ponto de rir dela, como a maior parte dos homens que ignoram essa ciência da alma.
    Apesar disso, eu amo as ciências e tenho gosto pelo estudo, algo que está implícito em mim; então por que razão eu ria desse conhecimento que ainda me era desconhecido? Não seria isso um efeito de minha fé católica frustrada?
    As religiões se valem, eu achava, daquilo que seus ministros formavam, por isso as seitas se odeiam mutuamente. Não seria o mesmo com o Espiritismo e os Espíritas?
    Melhor, então, para mim, seria ficar com meu materialismo, porque ele me parecia mais lógico, mais positivo e, errar por errar, ele é mais certo e mais científico do que todas as doutrinas rotuladas. Além disso, eu não conhecia o Espiritismo.
    Mas a velha Providência – e, atualmente, eu ouso afirmar – não me quis deixar ainda muito tempo num erro que era também por demais grosseiro.
    Depois de ter provado minha consciência, depois de ter-me esclarecido sobre a verdade das religiões, a Providência não poderia apartar-me do bom caminho, tanto mais que, malgrado todas as misérias sofridas, senti-me vencedor de minhas provas. Minha alma, então, obteve seu triunfo sobre as baixezas humanas. Ela deveria, portanto, receber seu coroamento na consciência, a mais sublime, a mais sábia e consoladora, que é a consciência do Espiritismo.
    Mas, por que crer na Providência? Ela não seria apenas uma quimera inventada para o espírito humano tropeçar?
    Esse era meu pensamento materialista falando. Reconheço, hoje, uma ação real e oculta nos eventos terrestres e, em particular, no mais insignificante dos fatos que nos interessam. Das provas numerosas que me foram conclusivas para que eu apoiasse minha firmação de Espírita, minha conversão ao Espiritismo é a mais saliente de todas.
    Entretanto, antes de conhecer os fatos que determinaram essa conversão, é bom conhecer o sentimento que nasceu em minha consciência de materialista, ainda que, com isso, eu venha a refutar o Catolicismo e todas as outras religiões.
    Em determinado momento da minha vida, uma desmoralização completa havia-se apoderado de meus pensamentos. Um caos inextricável reinava sobre meu espírito e, ainda que me concedesse uma certa perspicácia, fazia com que a minha vontade me abandonasse e com que todas as minhas ilusões levantassem voo. A esperança em um futuro melhor, para mim, estava completamente perdida. Eu estava desiludido, desolado, e , dessa forma, eu não me considerava mais do que uma marionete na superfície dos elementos.
    A vida, naquelas condições, numa Sociedade assim, não valia a pena ser vivida e, dessa forma, eu perdia as esperanças de viver.
    Por muito tempo, fiquei absorvido nesses tristes pensamentos. Por muito tempo, fiquei meditando sobre a minha própria existência. Estava cansado de viver como um autômato vivo, considerando-me menos interessante e útil do que uma máquina, menos interessante ainda do que um ser bruto qualquer.
    Não obstante, mais tarde, a razão retornou a mim e veio em meu auxílio, arrancando-me desse estado incerto que me estava conduzindo às piores consequências. Naquele momento, um calafrio poderoso percorreu meu ser, e o espírito de conservação transportou-me acima de meu desânimo moral.
    Que importava, então, se a vida deveria terminar no nascimento?
    Que importava, então, as vicissitudes da existência? Todo o ser que vem ao mundo deve suportar sua sorte. Dessa forma, ele deve viver e morrer segundo a lei. Sendo assim, a natureza fala, e o homem deve escutar a sua voz.
    A vida é uma luta? Eu lutarei, pois esse é meu direito, esse é meu dever.
    Meu dever!! Não devo completar meu dever frente à Sociedade e, também, frente à minha família?
    Nascendo, contraímos as dívidas que devemos saldar. Essas dívidas são inerentes a todos os seres vivos, sendo relativas à nossa organização especial.
    Isso dito, não podemos considerar um homem de outro modo do que um covarde e um vil quando ele se subtrai à lei universal da criação.
    É um grito instintivo certo esse que formula meu pensamento. Também são assim as boas cotas do Cristianismo que restam em mim, juntamente a uma bagagem de teorias republicanas que eu tirei de minhas leituras e das minhas experiências de vida.
    Naquela época, eu era bastante conhecido pelas minhas ideias materialistas. A maior parte de meus amigos e conhecidos aprovavam quase sempre as minhas incursões sobre esse capítulo. Encorajado nesse caminho, eu tinha a vaidade de escrever tudo o que eu pensava e de dar qualquer cópia do resumo de minhas convicções a esses amigos do acaso, que conservariam meus manuscritos assinados com meu nome. Nesses escritos, eu acreditava ser capaz de refutar a existência da alma e a de Deus.
    Aqui peço perdão ao Todo Poderoso de O ter subestimado, mas esse é o meu erro? Não seria, talvez, o resultado de uma educação mal orientada, de uma consciência errônea, enredada pelos dogmas de uma seita nefasta?
    Em lugar de fazer-nos crer nos milagres, de desviar nosso espírito da verdade, essas seitas deveriam, sim, expor o homem e, sobretudo, a criança aos conhecimentos adquiridos pelo domínio científico. Se o ser humano soubesse acerca do progresso dessas novas conquistas, ele não tombaria nos erros que derruba, por vezes, mesmo a mais perfeita inteligência. Com esse conhecimento, o ser humano marcharia sem parar para a verdade; mesmo que, nesse caminho, o homem desprotegido viesse a lutar contra uma rocha inexpugnável, que é o egoísmo orgulhoso que mantem a ignorância por interesse. O que fazer se ele tropeça, vez que outra, nesse caminho? Ao meu ver, ele deve tentar limpar-se do engano. Eu me limpei, mas o resultado foi, primeiramente, negativo, enquanto minha convicção materialista sentia-se inquebrantável no meu espírito. Um fato, que eu agora atribuo à Providência, veio sacudir todas as bases do edifício de certezas que eu vinha construindo.
    Somos forçados a crer que todos somos transitórios aqui embaixo e que o espírito humano, ele mesmo, evolui ao infinito sem jamais encontrar um ponto fixo que lhe mostre a verdade numa única jornada definitiva.
    Vejam como é!
    Primeiramente, devo dizer que a companheira que escolhi para atravessar a existência que nos foi concedida não compartilhava nem da metade de minhas convicções finais, pois ela ainda não estava liberada e desentranhada de suas crenças religiosas que lhe foram inculcadas pelo Catolicismo.
    Um dia, ela me contou que uma senhora, locatária no mesmo prédio em que morávamos, nos visitando, falara sobre a probabilidade da existência da alma e de Deus. Após tomar conhecimento das minhas ideias acerca desse assunto, essa senhora disse à minha mulher que se engajaria em me provar que eu estava completamente errado em minhas convicções. Essas palavras, esse desafio, me intrigaram vivamente, deixando-me curioso por conhecer essas provas propostas, uma vez que eram um desafio às minhas convicções materialistas daquela época.
    Assim que foi possível, fui encontrar-me com a minha vizinha, batendo à sua porta, a fim de solicitar a explicação que ela me havia prometido. O senhor M., seu marido, veio receber-me. Eu me apresentei a ele e expliquei sobre o objetivo de minha visita. Ele me recebeu sem a menor cerimônia. Disse-me estar extremamente honrado de poder iniciar-me nesses conhecimentos. Em seguida, indicou-me uma cadeira, para que eu me acomodasse, e começou por me explicar uma parte da Doutrina Espírita. Depois dessas preliminares úteis sobre a compreensão dos fenômenos Espíritas, ele pediu à Senhora X., que era médium, que lhe auxiliasse na sessão à qual ele me fez assistir.
    Essa sessão resultou maravilhosa, mas poderia, de fato, afirmar que saí daquela casa edificado sobre a realidade dos fatos que se desenvolveram frente aos meus olhos? Não, pois eu, até aquele momento, acreditava ter sido mistificado pelo senhor M. e pela senhora X. Naquele momento, pelo menos, eles não me inspiraram confiança. Não obstante isso, a doutrina do senhor X. não teria como deixar-me indiferente, e a moral oriunda dela, toda nova para mim, pareceu-me excelente.
    Naquela mesma época, certas circunstâncias obrigaram-me a sair de Marseille e ir morar em Aix-en- Provence. Levei comigo a lembrança daquela memorável cena que, mais tarde, deveria mudar totalmente minhas ideias filosóficas.
    Ao sair de Marseille, minha primeira providência foi a de comprar uma obra tratando do Espiritismo. Minha escolha foi extremamente honrada, pois levei o carro chefe de Metzger: “Ensaio do Espiritismo Científico”.
    Três meses se passaram após minha instalação em Aix. Estávamos no inverno.
    Habitualmente, sempre que minha jornada de trabalho estava terminada, eu mergulhava numa meditação profunda sobre os ensinamentos do livro que havia trazido de Marseille.
    Uma noite, após terminar aquelas belas páginas, não pude deixar de refletir seriamente em tudo o que havia visto e entendido com os meus vizinhos de Marseille.
    Era verdadeiramente inacreditável a crença nos Espíritos; mas por que não era ela mais divulgada? Uma vez que ela existia, indagava-me do porquê da maioria dos humanos rirem dessa crença e a considerarem como uma utopia.

Tradução livre do publicado no “Le Progrès Spirite”, “Órgane de Propagande de la Doctrine Spirite, fundeé par Allan Kardec, cujo editor chefe é A. Laurent de Faget, na edição de número 8, datada de 20 de Abril de 1901, no 7º ano de edição. Conforme original.